FRAUDE, GOLPE E ESTELIONATO
Sinônimos na linguagem cotidiana, institutos distintos perante o Direito
Jaison Vieira
Advogado Especialista em Fraudes
confiança como fundamento das relações humanas
A confiança constitui um dos fundamentos mais importantes da convivência humana. Está presente nas relações familiares, afetivas, comerciais, profissionais e institucionais. Sem ela, a vida em sociedade seria marcada pela permanente suspeita, tornando praticamente inviável a celebração de negócios, a circulação de riquezas e até mesmo as relações pessoais mais elementares.
Confiamos na palavra de quem assume uma obrigação, na identidade de quem se apresenta como representante de uma instituição, na autenticidade dos documentos que recebemos e na legitimidade das informações que orientam nossas decisões.
Essa confiança não representa, necessariamente, ingenuidade. É uma condição indispensável à organização da sociedade.
Entretanto, aquilo que torna possíveis as relações humanas também pode representar uma de suas maiores vulnerabilidades.
É precisamente dessa confiança que frequentemente se valem aqueles que pretendem enganar, fraudar ou obter vantagens indevidas. O agente não precisa recorrer à força ou à ameaça. Pode construir uma aparência de legitimidade, apresentar informações falsas, ocultar circunstâncias relevantes ou assumir uma identidade que inspire credibilidade.
A vítima, acreditando na realidade que lhe foi apresentada, pode entregar valores, transferir patrimônio, assinar documentos ou assumir obrigações que jamais aceitaria se conhecesse os verdadeiros fatos.
Nessas situações, o prejuízo pode decorrer de um ato praticado pela própria vítima. Mas sua manifestação de vontade encontra-se comprometida pelo engano que a determinou.
É justamente essa circunstância que torna determinadas práticas fraudulentas particularmente complexas: o agente transforma a confiança da vítima no instrumento de sua própria lesão patrimonial.
Naturalmente, nem toda fraude depende de uma manifestação de vontade da pessoa prejudicada. Há mecanismos fraudulentos que operam independentemente de sua participação, como determinadas simulações negociais, ocultações patrimoniais e atos praticados em prejuízo de credores.
Ainda assim, a violação da confiança permanece como uma dimensão relevante do fenômeno, seja nas relações interpessoais, seja na credibilidade que se espera dos negócios e das instituições.
A fraude não representa, portanto, apenas uma forma de obtenção indevida de vantagens. Ela também pode revelar uma ruptura entre a aparência de legitimidade e a realidade dos comportamentos humanos.
Essa característica não é uma invenção da sociedade contemporânea.
Muito antes da internet, dos aplicativos bancários e das sofisticadas operações financeiras, o engano já acompanhava as relações comerciais, familiares e patrimoniais.
A história da fraude confunde-se, em larga medida, com a própria história da confiança e de sua violação.
É a partir dessa constatação que surge a questão central deste artigo: fraude, golpe e estelionato são expressões equivalentes ou representam fenômenos distintos, com pressupostos e consequências jurídicas próprias?
A confiança no pensamento dos filósofos antigos
Muito antes de a fraude adquirir suas modernas configurações jurídicas, a filosofia já reconhecia a importância da confiança para a convivência humana.
Embora os pensadores da Antiguidade nem sempre a tratassem como um conceito autônomo, a confiança aparecia associada à verdade, à amizade, à justiça, à boa-fé e à fidelidade à palavra empenhada.
Aristóteles (384–322 a.C.), em Ética a Nicômaco, especialmente nos livros VIII e IX, examinou a amizade (philia) como elemento indispensável à vida humana e à organização da comunidade.
Para o filósofo, a convivência não se sustenta apenas em normas ou interesses econômicos. As relações humanas dependem de virtudes como justiça, reciprocidade e disposição para agir corretamente em relação aos outros.
No Livro VIII, capítulo 1, Aristóteles afirma, em tradução livre, que, quando os homens são amigos, não necessitam da justiça, mas, mesmo quando são justos, ainda necessitam da amizade.
A passagem não significa que a amizade dispense a existência de leis. Revela, antes, que a qualidade das relações humanas não pode ser reduzida à imposição de regras coercitivas.
No mesmo Livro VIII, capítulo 9, Aristóteles considera mais grave defraudar um companheiro do que um simples concidadão, relacionando a gravidade da injustiça à proximidade do vínculo existente entre as pessoas.
Essa reflexão é particularmente relevante para compreender as fraudes praticadas em relações familiares, afetivas, societárias e profissionais, nas quais o prejuízo patrimonial pode ser acompanhado pela ruptura de vínculos anteriormente estabelecidos.
A confiança, nessa perspectiva, não representa uma fraqueza individual, mas uma condição da própria convivência.
Platão (c. 427–347 a.C.), por sua vez, examinou a relação entre verdade, falsidade e conhecimento.
Em A República, Livro II, 382a–382d, distinguiu a falsidade existente na alma daquela expressa em palavras, relacionando a primeira ao afastamento da verdade e à ignorância.
É importante observar que Platão não apresenta uma condenação absoluta de toda falsidade verbal, admitindo determinadas situações excepcionais em sua reflexão política.
Ainda assim, sua filosofia permite desenvolver uma consideração especialmente pertinente ao estudo da fraude: a construção deliberada de uma realidade aparente pode comprometer a capacidade de julgamento daquele que recebe informações falsas.
Trata-se de uma interpretação contemporânea a partir de seu pensamento, e não de uma definição de fraude formulada pelo próprio filósofo.
Entretanto, é no pensamento de Marco Túlio Cícero (106–43 a.C.) que encontramos uma aproximação particularmente significativa entre confiança, honestidade e relações patrimoniais.
Em De Officiis (Dos Deveres), Livro I, seção 23, Cícero afirmou:
Fundamentum autem est iustitiae fides.
Em tradução livre: o fundamento da justiça é a boa-fé.
A expressão latina fides reúne significados relacionados à confiança, à lealdade, à credibilidade e à fidelidade aos compromissos assumidos.
No Livro III da mesma obra, Cícero apresenta situações concretas que demonstram a atualidade de sua reflexão.
Uma delas envolve um comerciante que chega a Rodes com uma carga de grãos, sabendo que outros navios carregados com a mesma mercadoria estão prestes a chegar. Os habitantes, entretanto, desconhecem essa informação e enfrentam dificuldades de abastecimento.
Surge então uma questão moral: seria legítimo o comerciante aproveitar-se do desconhecimento dos compradores para obter um preço mais elevado?
Em outro exemplo, Cícero examina a situação de um vendedor que conhece defeitos relevantes de um imóvel, ignorados pelo potencial comprador.
Em ambos os casos, a discussão ultrapassa a existência de uma mentira expressa. O problema está na ocultação deliberada de informações relevantes e na exploração da ignorância alheia para obtenção de vantagem.
Cícero expõe, inclusive, posições distintas sobre a extensão do dever de revelar informações, desenvolvendo a tensão entre o interesse individual e as exigências da honestidade.
Sua reflexão demonstra que a busca de vantagem econômica não pode ser examinada isoladamente dos deveres de justiça e lealdade.
Esses pensamentos revelam uma preocupação que atravessou os séculos: nenhuma sociedade pode organizar suas relações sobre a expectativa permanente do engano.
Paradoxalmente, é dessa indispensável confiança que se aproveita aquele que pretende fraudar.
O fraudador não explora apenas uma vulnerabilidade individual. Explora uma necessidade da própria vida em sociedade.
Da Antiguidade ao pensamento jurídico moderno
A palavra fraude tem origem no latim fraus, fraudis, associada ao engano, à má-fé e ao prejuízo produzido mediante comportamento desleal.
No Direito Romano, a preocupação com os atos fraudulentos já se manifestava em diferentes institutos. A tradição jurídica desenvolveu distinções entre determinadas formas de astúcia negocial e o comportamento doloso juridicamente censurável, associado à noção de dolus malus.
A referência histórica ao chamado dolus bonus deve ser compreendida nesse contexto, sem supor que existisse uma classificação única e invariável para todas as situações negociais.
A preocupação fundamental permanece atual: nem toda habilidade negocial é ilícita, assim como nem toda vantagem obtida em uma negociação resulta de fraude.
A experiência romana também contribuiu para o desenvolvimento de mecanismos de proteção contra atos praticados em prejuízo de credores, tradicionalmente relacionados à chamada actio Pauliana e a outros instrumentos de impugnação de disposições patrimoniais fraudulentas.
Embora esses mecanismos não correspondam integralmente aos institutos previstos no Direito brasileiro contemporâneo, revelam uma preocupação histórica com negócios utilizados para frustrar direitos legítimos.
O problema não estava necessariamente na forma do negócio, mas na finalidade fraudulenta que poderia estar oculta sob sua aparência de legitimidade.
Com o desenvolvimento dos sistemas jurídicos modernos, a proteção da confiança passou a manifestar-se por diferentes mecanismos, particularmente mediante a boa-fé, a tutela da manifestação livre da vontade, a responsabilidade civil e a repressão penal a determinadas condutas enganosas.
A fraude, portanto, não constitui apenas um problema econômico. É também uma questão ética, filosófica e institucional.
Fraude, golpe e estelionato: três expressões, diferentes significados
Na linguagem cotidiana, é comum que as expressões fraude, golpe e estelionato sejam utilizadas indistintamente.
Alguém recebe uma mensagem falsa solicitando dinheiro e afirma ter sofrido um golpe. Outra pessoa descobre irregularidades em um contrato e declara ter sido vítima de fraude. Uma terceira, diante de um investimento que não produziu os resultados prometidos, acusa os responsáveis de estelionato.
Embora essas expressões possam descrever aspectos de um mesmo acontecimento, elas não possuem necessariamente o mesmo significado jurídico.
Fraude é a expressão mais abrangente. Designa, em sentido geral, comportamentos enganosos ou desleais empregados para alterar a percepção da realidade, contornar regras ou frustrar direitos.
Sua relevância jurídica não está limitada ao Direito Penal.
No Direito Civil, pode manifestar-se por meio de negócios simulados, atos praticados em prejuízo de credores, ocultação patrimonial e outras condutas destinadas a comprometer direitos de terceiros.
No Direito Empresarial, pode envolver operações artificiais, desvio de ativos, manipulação de informações societárias e utilização abusiva de estruturas empresariais.
No âmbito processual, determinadas alienações ou onerações patrimoniais podem configurar fraude à execução, desde que presentes os pressupostos legais.
Essas situações possuem requisitos e consequências diferentes. A existência de fraude em determinado ramo do Direito não implica, automaticamente, a configuração de um crime.
Golpe, por sua vez, é uma expressão predominantemente popular.
Embora amplamente utilizada pela sociedade, pelos meios de comunicação e até mesmo em documentos policiais, não corresponde, por si só, a um tipo penal autônomo.
A expressão descreve, normalmente, uma ação enganosa destinada a obter vantagem indevida. Pode envolver falsa identidade, manipulação emocional, promessa fictícia, induzimento ao erro ou exploração de uma situação de vulnerabilidade.
O chamado golpe do falso funcionário bancário, por exemplo, pode apresentar diferentes enquadramentos jurídicos conforme o mecanismo empregado para produzir a movimentação patrimonial.
O nome popular atribuído à conduta não substitui a análise dos seus elementos concretos.
Estelionato, diferentemente, possui definição penal específica.
O artigo 171 do Código Penal brasileiro descreve a conduta de obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento.
Não basta, portanto, a existência de uma mentira. Tampouco basta a ocorrência de prejuízo econômico.
A configuração do estelionato exige a presença dos elementos previstos na lei, incluindo o emprego de meio fraudulento, o erro da vítima, a obtenção de vantagem ilícita, o prejuízo alheio e o vínculo entre esses elementos, além do dolo.
A confiança frequentemente desempenha papel importante na dinâmica do engano, mas não constitui requisito autônomo previsto na descrição legal do estelionato.
A distinção é fundamental.
Uma fraude pode produzir consequências exclusivamente civis. Um golpe, na linguagem popular, pode corresponder a diferentes infrações penais. E uma situação inicialmente apresentada como estelionato pode revelar, após exame jurídico, um inadimplemento contratual ou outro conflito que não preenche os requisitos do crime.
A classificação jurídica não depende da indignação provocada pelo acontecimento, mas da efetiva demonstração dos elementos legais.
A fraude civil e os limites da intervenção penal
O ordenamento jurídico brasileiro reconhece diferentes manifestações da fraude.
O Código Civil disciplina o dolo como defeito do negócio jurídico, especialmente nos artigos 145 a 150. Também prevê, nos artigos 158 a 165, hipóteses de fraude contra credores, além de estabelecer, no artigo 167, a nulidade do negócio jurídico simulado.
A fraude à execução, por sua vez, encontra disciplina específica no artigo 792 do Código de Processo Civil.
Esses institutos não se confundem.
O dolo negocial relaciona-se à formação da vontade. A fraude contra credores envolve atos de disposição patrimonial prejudiciais à garantia dos credores, observados os pressupostos legais. A simulação diz respeito à divergência intencional entre a declaração negocial aparente e a realidade que se pretende ocultar. A fraude à execução protege a efetividade da atividade jurisdicional diante de atos patrimoniais praticados nas situações previstas em lei.
Cada instituto possui pressupostos próprios, consequências específicas e exigências probatórias que não podem ser ignoradas.
É precisamente nesse ponto que se torna necessária uma reflexão sobre os limites do Direito Penal.
O simples descumprimento de uma obrigação não constitui estelionato.
Uma pessoa pode deixar de pagar uma dívida por dificuldades financeiras, por divergência contratual ou por circunstâncias supervenientes. Pode também assumir uma obrigação e, posteriormente, tornar-se incapaz de cumpri-la.
Essas situações não autorizam, isoladamente, a conclusão de que existiu intenção criminosa.
Por outro lado, a utilização de um contrato formalmente válido não impede o reconhecimento de estelionato quando o negócio tiver sido empregado, desde sua concepção, como instrumento de engano para obtenção de vantagem ilícita.
A investigação deve considerar a formação da relação jurídica, as declarações realizadas, os meios empregados, a destinação dos recursos e as circunstâncias que permitam identificar a intenção do agente.
A diferença entre o inadimplemento civil e o estelionato não reside apenas no resultado econômico. Está, sobretudo, na presença ou ausência dos elementos constitutivos da fraude penalmente relevante.
Criminalizar todo prejuízo contratual significaria transformar o Direito Penal em mecanismo ordinário de cobrança, contrariando sua função de intervenção limitada às condutas legalmente tipificadas.
A transformação tecnológica dos golpes
A expansão das tecnologias digitais não criou a fraude, mas alterou profundamente suas possibilidades de execução.
Durante muito tempo, grande parte dos enganos patrimoniais dependia de contato pessoal, documentos físicos, negociações presenciais ou estruturas relativamente complexas.
Atualmente, uma identidade falsa pode ser construída em poucos minutos. Mensagens podem ser enviadas simultaneamente a milhares de destinatários. Páginas eletrônicas podem reproduzir a aparência de instituições legítimas, enquanto sistemas automatizados ampliam a capacidade de abordagem de potenciais vítimas.
O chamado golpe do falso funcionário bancário demonstra essa transformação.
O criminoso pode utilizar informações verdadeiras sobre a vítima, simular uma comunicação institucional e convencê-la de que determinada operação é necessária para proteger seu patrimônio.
Em outras situações, o fraudador assume a identidade de um familiar, utiliza imagens obtidas em redes sociais ou constrói uma narrativa de urgência para provocar transferências financeiras.
Também se multiplicaram esquemas de investimentos fictícios, falsas oportunidades comerciais, plataformas fraudulentas e relacionamentos afetivos utilizados como instrumentos de exploração patrimonial.
Essas práticas não possuem, necessariamente, o mesmo enquadramento penal.
A Lei nº 14.155/2021 introduziu alterações relevantes no Código Penal, incluindo a disciplina da fraude eletrônica no âmbito do estelionato e mudanças relacionadas ao furto mediante fraude praticado por meios eletrônicos ou informáticos.
A distinção merece atenção.
Quando a vítima, induzida em erro, realiza um ato de disposição patrimonial, a análise pode conduzir ao estelionato, conforme as circunstâncias.
Quando ocorre subtração patrimonial por mecanismo fraudulento, sem ato de disposição patrimonial da vítima provocado pelo engano, pode surgir discussão sobre o enquadramento como furto mediante fraude.
A utilização de computadores, aplicativos ou sistemas bancários não resolve, por si só, a classificação.
O que importa é compreender como o patrimônio foi atingido e qual foi o papel desempenhado pelo engano na dinâmica do fato.
Também não se deve confundir a identificação do crime com a responsabilidade civil das instituições envolvidas.
Uma fraude bancária pode suscitar questões relacionadas à segurança dos serviços, ao dever de prevenção, à identificação de operações atípicas e à existência de falhas na prestação do serviço.
Entretanto, a responsabilidade da instituição financeira exige exame próprio, considerando as circunstâncias concretas, a legislação aplicável e a relação entre o risco da atividade e o dano experimentado.
A ocorrência de um golpe não conduz automaticamente à responsabilidade de todos os participantes da cadeia de operações.
A fraude para além do indivíduo
A imagem tradicional do fraudador costuma ser a de uma pessoa que engana outra para obter dinheiro.
Essa representação, embora corresponda a inúmeras situações, é insuficiente para compreender as manifestações contemporâneas da fraude.
O engano também pode ser estruturado mediante organizações, procedimentos empresariais, sistemas tecnológicos e operações sucessivas destinadas a conferir aparência de legitimidade a práticas desleais.
Em determinados contextos, não existe apenas uma mentira isolada, mas uma sequência organizada de atos que, considerados individualmente, parecem regulares.
Uma sociedade pode ser constituída para ocultar o verdadeiro beneficiário de determinadas operações. Contratos podem ser utilizados para justificar transferências sem correspondência econômica real. Obrigações fictícias podem ser criadas para reduzir artificialmente um patrimônio. Informações relevantes podem ser deliberadamente omitidas para induzir investidores, credores ou parceiros comerciais a decisões prejudiciais.
Nas relações familiares, mecanismos semelhantes podem ser utilizados para ocultar patrimônio comum, simular alienações ou frustrar direitos decorrentes da dissolução de vínculos conjugais.
Essas situações demonstram que a fraude pode ser mais complexa do que uma declaração falsa.
Frequentemente, ela resulta da combinação de atos aparentemente legítimos, organizados para produzir um resultado juridicamente reprovável.
Isso não autoriza, contudo, presumir fraude pela simples existência de uma estrutura societária, de planejamento patrimonial ou de operações entre pessoas relacionadas.
A licitude ou ilicitude depende dos fatos, da finalidade, dos requisitos legais e das provas disponíveis.
A investigação juridicamente responsável deve distinguir planejamento legítimo, abuso de direito, simulação, fraude civil e eventual conduta criminosa.
A complexidade dos mecanismos não dispensa a precisão da classificação jurídica.
A prova da fraude e o perigo das aparências
Um dos maiores desafios relacionados à fraude está em sua demonstração.
Diferentemente de determinadas condutas ostensivas, o comportamento fraudulento frequentemente é planejado para aparentar regularidade.
Documentos podem existir. Contratos podem estar assinados. Transferências podem ter sido formalmente autorizadas. Sociedades podem encontrar-se regularmente registradas.
Nenhum desses elementos, isoladamente, assegura a licitude da operação. Mas sua existência também não constitui prova de fraude.
É necessário reconstruir a sequência dos acontecimentos, identificar a finalidade dos atos e confrontar as declarações dos envolvidos com os elementos objetivos disponíveis.
A cronologia pode revelar contradições importantes. A circulação de recursos pode demonstrar vínculos ocultos. Comunicações eletrônicas podem esclarecer promessas, orientações e intenções. Documentos societários e contábeis podem revelar divergências entre a aparência formal e a realidade econômica.
A prova indiciária pode desempenhar papel relevante, desde que os indícios sejam concretos, coerentes e analisados em conjunto, respeitando-se as exigências probatórias aplicáveis a cada espécie de procedimento.
Especialmente no âmbito penal, a gravidade de uma acusação não permite substituir prova por suspeita.
A sofisticação de uma operação não demonstra, por si só, intenção criminosa. O prejuízo econômico também não autoriza presumir dolo.
A proteção das vítimas e a preservação das garantias individuais não são objetivos incompatíveis.
Ao contrário, ambos dependem de uma investigação séria, tecnicamente fundamentada e comprometida com a reconstrução dos fatos.
O impacto da fraude sobre a confiança coletiva
A fraude não produz consequências apenas sobre o patrimônio da vítima.
Quando práticas fraudulentas se multiplicam, seus efeitos alcançam a própria organização das relações sociais.
Aumentam os custos das transações, enfraquece-se a credibilidade das instituições e amplia-se a desconfiança entre as pessoas.
O cidadão passa a desconfiar de mensagens legítimas, de comunicações bancárias, de propostas comerciais e até mesmo de solicitações provenientes de pessoas próximas.
Empresas precisam ampliar mecanismos de verificação. Instituições financeiras desenvolvem controles adicionais. Relações negociais tornam-se mais burocráticas e custosas.
O paradoxo é evidente: a confiança, indispensável ao funcionamento da sociedade, passa a ser progressivamente substituída por mecanismos de controle destinados a prevenir sua exploração.
A prevenção da fraude, portanto, não interessa apenas às vítimas diretamente atingidas.
Ela constitui uma necessidade coletiva, relacionada à preservação da segurança das relações jurídicas e da credibilidade das instituições.
O prejuízo decorrente da fraude não se limita ao valor subtraído ou ao negócio comprometido.
Há também uma deterioração da confiança social, cuja reconstrução pode ser muito mais difícil do que a recomposição patrimonial.
Considerações finais
Fraude, golpe e estelionato não são expressões juridicamente equivalentes.
A fraude representa um fenômeno amplo, que pode manifestar-se em diferentes relações e produzir consequências civis, empresariais, administrativas ou penais.
O golpe constitui uma expressão popular utilizada para descrever práticas enganosas, sem corresponder a uma categoria penal autônoma.
O estelionato, por sua vez, é um crime especificamente definido pela legislação brasileira e depende da demonstração dos elementos que integram sua descrição legal.
Confundir essas expressões não constitui apenas uma imprecisão terminológica. Pode conduzir a erros na identificação de responsabilidades, na escolha das medidas jurídicas e na avaliação das provas.
A história demonstra que a fraude acompanha a humanidade desde suas primeiras formas organizadas de convivência. A filosofia revela que sua gravidade não está restrita ao patrimônio, mas também à violação da confiança. O Direito, por sua vez, estabelece os limites necessários para distinguir a deslealdade moral, o ilícito civil e a infração penal.
A tecnologia ampliou a velocidade, o alcance e a sofisticação dos mecanismos fraudulentos. Contudo, não modificou sua essência.
Por trás de uma mensagem falsa, de um contrato simulado, de uma identidade digital artificial ou de uma complexa operação patrimonial, permanece a mesma lógica: construir uma aparência de verdade para obter uma vantagem que, sem o engano, provavelmente não seria concedida.
Mudaram os instrumentos, multiplicaram-se as vítimas e sofisticaram-se os métodos.
O que permanece é a exploração da confiança humana.
Compreender a fraude, portanto, exige mais do que conhecer a lei. Exige compreender o comportamento humano, reconhecer os limites da confiança e, sobretudo, saber distinguir aquilo que parece ilícito daquilo que efetivamente pode ser demonstrado como tal.
Jaison Vieira
18 de outubro de 2026
j.vieira@jvadvocacia.adv.br
O EXEMPLO VEM DE CIMA
Os limites do poder judicial e a normalização da excepcionalidade no sistema de Justiça brasileiro
Por Jaison Vieira | Advogado
INTRODUÇÃO
Este artigo não pretende realizar um inventário das decisões controvertidas do Supremo Tribunal Federal.
Um único episódio talvez seja suficiente para colocar o problema em sua verdadeira dimensão.
O Inquérito 4.781 interessa menos pelas pessoas que alcançou ou pelas controvérsias políticas que produziu do que pelo mecanismo jurídico que tornou possível sua criação e, posteriormente, sua legitimação.
É nesse mecanismo que se encontra a questão central deste trabalho.
O Estado de Direito não procura conter o poder apenas mediante grandes declarações de princípios. Ele o faz também por regras aparentemente modestas: competência, distribuição, juiz natural, iniciativa, delimitação do objeto, contraditório e separação das funções de investigar, acusar e julgar.
Essas regras são barreiras.
Individualmente, podem parecer meramente procedimentais. Em conjunto, impedem que a autoridade pública defina livremente quando, como, contra quem e por quais meios exercerá determinado poder.
O problema começa quando a gravidade da situação concreta passa a servir de fundamento para reinterpretar as próprias regras que deveriam limitar a autoridade encarregada de enfrentá-la.
O Inquérito 4.781 oferece objeto particularmente importante para examinar esse fenômeno.
Não porque se possa ignorar a existência de ameaças contra ministros do Supremo Tribunal Federal ou ataques dirigidos às instituições democráticas. Essas circunstâncias precisam ser reconhecidas.
A questão é outra:
a existência de uma finalidade legítima autoriza o Poder Judiciário a ampliar, por interpretação própria, os limites da competência extraordinária que lhe foi atribuída?
Essa pergunta conduz diretamente ao artigo 43 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal.
- O QUE SIGNIFICAVA “SEDE OU DEPENDÊNCIA DO TRIBUNAL”?
O artigo 43 do Regimento Interno do STF prevê a instauração de inquérito quando ocorrer infração à lei penal “na sede ou dependência do Tribunal”, nas condições estabelecidas pelo próprio dispositivo.
A expressão importa porque a norma não estabelece, em sua literalidade, uma competência geral do Supremo para investigar qualquer crime praticado contra a Corte ou contra seus ministros.
Existe um elemento delimitador.
A infração deve ocorrer “na sede ou dependência do Tribunal”.
A localização sistemática do dispositivo também é relevante.
O artigo 43 está inserido no capítulo destinado à Polícia do Tribunal. Os dispositivos próximos tratam da polícia da Corte, da manutenção da ordem e das providências relacionadas ao funcionamento interno da instituição.
Há ainda tratamento regimental específico para determinadas condutas dirigidas contra o Tribunal ou seus integrantes.
Esses elementos permitem distinguir duas situações que não são necessariamente equivalentes:
uma coisa é o crime ocorrido no Tribunal;
outra é o crime praticado contra o Tribunal ou seus ministros.
O primeiro critério é espacial.
O segundo identifica o sujeito atingido pela conduta.
Não se pretende afirmar, sem documentação histórica específica dos trabalhos preparatórios do Regimento, que conhecemos a intenção subjetiva de seus autores.
A conclusão é mais limitada — e suficiente.
A redação, a localização sistemática e a relação do artigo 43 com os dispositivos contíguos fornecem fortes elementos para compreendê-lo como norma vinculada ao poder de polícia interna do Tribunal.
A diferença não é meramente semântica.
Ela delimita poder.
- A CRIAÇÃO DO INQUÉRITO 4.781
Em 14 de março de 2019, o então Presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, editou a Portaria GP nº 69.
O ato registrava a existência de notícias fraudulentas, denunciações caluniosas, ameaças e infrações contra a honra e a segurança do Supremo, de seus membros e familiares e, invocando o artigo 43 e seguintes do Regimento Interno, determinou a instauração de inquérito para apuração dos fatos e infrações correspondentes “em toda a sua dimensão”.
A Portaria designou diretamente o ministro Alexandre de Moraes para a condução do procedimento.
A própria ADPF 572, posteriormente ajuizada contra o ato, registrou entre as objeções formuladas pela autora justamente a ausência de indicação de ato praticado na sede ou dependência do STF, a excepcionalidade da condução de investigação criminal pelo Judiciário e a ausência de livre distribuição.
Não houve, portanto, controvérsia criada retrospectivamente.
A dificuldade estava presente desde a origem.
E existe uma questão logicamente anterior até mesmo à discussão sobre distribuição e juiz natural.
Os fatos que justificaram a Portaria não correspondiam simplesmente à ocorrência de infração penal dentro do edifício do Supremo Tribunal Federal.
Tratava-se também de manifestações e condutas praticadas fora das dependências físicas da Corte, inclusive no ambiente digital.
Surgia, portanto, a pergunta:
se o artigo 43 condicionava aquela atribuição investigatória extraordinária à ocorrência da infração “na sede ou dependência do Tribunal”, como poderia servir de fundamento para investigar fatos praticados fora dela?
É nesse ponto que a hermenêutica deixa de ser questão abstrata e passa a definir concretamente os limites do poder.
- HERMENÊUTICA, FORMA E FINALIDADE
A discussão sobre o artigo 43 não pode ser reduzida a uma oposição simplista entre interpretação literal e interpretação evolutiva.
O Direito não se resume à literalidade das palavras.
Normas jurídicas precisam ser interpretadas. Textos concebidos em determinado momento histórico são aplicados décadas depois, diante de realidades sociais e tecnológicas que seus autores não poderiam antecipar.
A questão, portanto, não está em saber se o artigo 43 poderia ser interpretado.
Evidentemente poderia.
A questão é:
até onde a interpretação pode ir sem deixar de atualizar o significado da norma e passar a produzir uma norma diferente daquela que foi criada?
Esse problema torna-se particularmente sensível quando aquele que interpreta a norma é também beneficiário institucional da ampliação resultante da interpretação.
3.1. O texto como ponto de partida — e fronteira
Nenhuma interpretação jurídica séria se esgota na leitura gramatical.
O texto deve ser compreendido dentro do sistema, de sua história e de sua finalidade.
Mas reconhecer que o texto não encerra sozinho todo o significado da norma não significa reconhecer que ele não imponha limite algum ao intérprete.
Há interpretações possíveis.
Há interpretações difíceis.
E há resultados que exigem tamanho afastamento do significado ordinário das palavras que surge questão diferente:
ainda estamos interpretando a norma ou reconstruindo seu conteúdo para alcançar determinada finalidade?
Em matéria de competência, essa distinção é especialmente importante.
Interpretar expansivamente uma norma de competência significa, concretamente, expandir poder.
E, quando a competência é excepcional, a cautela interpretativa deveria ser proporcional à excepcionalidade do poder atribuído.
3.2. A interpretação gramatical
O artigo 43 emprega a expressão:
“na sede ou dependência do Tribunal”.
Em seu significado ordinário, “sede” designa o local em que determinada instituição está estabelecida.
“Dependência”, nesse contexto, designa espaço pertencente, subordinado ou funcionalmente relacionado àquela sede.
Nada nessa construção linguística conduz naturalmente à conclusão de que “dependência” corresponda a todo lugar em que possam ser sentidos os efeitos de uma conduta dirigida contra a instituição.
Muito menos a todo território no qual o Tribunal exerce jurisdição.
É possível defender atualização desses conceitos diante da realidade digital.
Mas é necessário reconhecer o ponto de partida:
considerar que uma publicação realizada pela internet, em qualquer lugar do país, ocorre “na sede ou dependência” do Supremo exige construção interpretativa adicional ao significado ordinário das palavras.
3.3. A interpretação sistemática
O contexto reforça essa cautela.
O artigo 43 integra o capítulo da Polícia do Tribunal.
A estrutura normativa permite distinguir:
crime ocorrido nas dependências do Tribunal
e
crime praticado contra o Tribunal.
O primeiro critério é espacial.
O segundo diz respeito à instituição atingida.
Transformar um no outro não constitui simples atualização vocabular.
Pode significar alteração do próprio critério de incidência da norma.
3.4. A interpretação histórica
O Regimento foi concebido antes da internet comercial, das redes sociais e da comunicação digital contemporânea.
Esse dado pode parecer inicialmente favorável à interpretação evolutiva.
Mas tudo depende de identificar qual problema a norma pretendia resolver.
Se o artigo 43 tivesse sido concebido para proteger o Supremo contra qualquer ataque, independentemente do lugar em que fosse praticado, a transformação tecnológica poderia justificar atualização dos meios pelos quais esses ataques se realizam.
Mas, se sua função normativa estava vinculada à polícia interna diante de infrações ocorridas no espaço institucional da Corte, a internet não altera necessariamente a razão que delimitava a competência.
A tecnologia modifica o modo pelo qual determinadas condutas são praticadas.
Não transforma necessariamente o lugar de onde são praticadas em dependência do Tribunal.
3.5. A finalidade da norma e a finalidade do intérprete
Toda norma possui uma razão de ser.
A interpretação teleológica procura compreendê-la à luz dessa finalidade.
Mas existe diferença fundamental entre a finalidade da norma e a finalidade pretendida pelo intérprete diante do caso concreto.
A finalidade do artigo 43 deve ser investigada a partir de sua redação, origem, localização sistemática e contexto normativo.
Outra coisa é identificar finalidade constitucionalmente relevante — proteger o Supremo, seus ministros ou a própria democracia — e, a partir dela, ampliar o significado do artigo 43 para fornecer instrumento capaz de alcançar esse objetivo.
Ambas podem ser finalidades legítimas.
Mas não são necessariamente a mesma finalidade.
É perfeitamente possível que proteger a Corte seja indispensável e, simultaneamente, que o artigo 43 não seja o instrumento juridicamente adequado para fazê-lo quando os fatos ocorram fora de suas dependências.
3.6. A finalidade não cria competência
O ponto merece formulação direta:
uma finalidade constitucionalmente legítima não cria, por si só, competência.
Combater crimes é finalidade legítima.
Proteger crianças é finalidade legítima.
Impedir fraudes é finalidade legítima.
Defender a democracia é finalidade constitucionalmente essencial.
Nenhuma dessas finalidades permite que qualquer autoridade utilize qualquer meio que considere adequado para realizá-la.
O Direito distribui competências justamente para responder:
quem pode fazer?
o que pode fazer?
por quais meios?
sob quais condições?
e até onde pode ir?
A finalidade pode justificar o exercício de uma competência existente.
Não substitui a necessidade de demonstrar sua existência.
- OS FINS E OS MEIOS
Há uma conhecida máxima tradicionalmente associada ao pensamento de Maquiavel segundo a qual “os fins justificam os meios”.
A frase, embora não apareça literalmente nesses termos em O Príncipe, tornou-se síntese histórica de determinada concepção pragmática do exercício do poder.
No Estado de Direito, a lógica deve ser outra.
Pode-se inverter a fórmula:
no Direito, são os meios que justificam os fins.
Não basta que o Estado persiga uma finalidade legítima.
É necessário que o faça por autoridade competente, mediante procedimento juridicamente adequado, respeitando as garantias aplicáveis e permanecendo dentro dos limites impostos ao exercício daquele poder.
Punir culpados é finalidade legítima.
Isso não dispensa o devido processo legal.
Combater crimes não autoriza qualquer meio de investigação.
Defender a democracia não torna irrelevantes competência, juiz natural, contraditório ou separação de funções.
Proteger uma Suprema Corte contra ameaças não responde, por si só, à pergunta sobre quem pode investigar, por qual procedimento e dentro de quais limites.
4.1. O meio não é acessório
Em um Estado submetido ao Direito, o procedimento não constitui mero caminho até o resultado considerado justo.
O procedimento integra a própria legitimidade do resultado.
Uma condenação penal não é legítima apenas porque o condenado efetivamente praticou o crime.
É necessário que seja produzida por autoridade competente, mediante processo regular, acusação válida, contraditório, defesa e prova juridicamente admissível.
O Direito não pergunta apenas:
qual resultado deve ser alcançado?
Pergunta também:
quem possui autoridade para alcançá-lo e por quais meios?
4.2. Quando o fim começa a interpretar o meio
O problema hermenêutico aparece quando a importância da finalidade começa a determinar a interpretação das regras que delimitam os meios disponíveis.
Existe uma finalidade legítima.
Existe uma regra que limita os meios disponíveis.
O meio juridicamente previsto parece insuficiente diante da gravidade da situação.
A regra limitadora recebe interpretação mais ampla.
Essa interpretação disponibiliza o meio considerado necessário.
E a necessidade do resultado passa a reforçar a legitimidade da interpretação que permitiu alcançá-lo.
Forma-se um círculo:
o fim justifica a ampliação do meio; o meio ampliado permite alcançar o fim; e a necessidade do fim passa a justificar a ampliação realizada.
É justamente esse círculo que as garantias jurídicas procuram romper.
4.3. Forma é poder distribuído
No Direito Público, forma é frequentemente poder distribuído.
Quando a Constituição determina quem investiga, quem acusa e quem julga, distribui poder.
Quando estabelece competência previamente definida, distribui poder.
Quando exige distribuição impessoal dos processos, distribui poder.
Quando assegura contraditório, disciplina o exercício do poder.
Quando exige decisão colegiada, distribui poder entre julgadores.
Romper a forma pode, portanto, significar concentrar aquilo que o ordenamento deliberadamente separou.
Por isso, quando se afirma que uma situação excepcional exige superar determinada “formalidade”, a primeira pergunta deveria ser:
estamos diante de uma forma vazia ou de uma barreira de contenção?
Competência não é burocracia.
Juiz natural não é preciosismo.
Contraditório não é ritual.
Separação entre investigar, acusar e julgar não é opção estética de organização estatal.
São mecanismos de contenção.
- QUANDO “SEDE OU DEPENDÊNCIA” DEIXA DE SER UM LUGAR
A constitucionalidade da Portaria 69 foi submetida ao Supremo na ADPF 572.
A objeção relativa à expressão “sede ou dependência” estava expressamente colocada.
No julgamento, diferentes votos construíram fundamentos para superar a leitura estritamente física da expressão.
No voto do relator, ministro Edson Fachin, a realidade dos crimes praticados pela internet foi relacionada ao caráter difuso dessas condutas e ao alcance territorial da jurisdição do Supremo.
Em outro voto, o ministro Luís Roberto Barroso enfrentou diretamente a expressão “sede ou dependência”, sustentando, em síntese, que sua compreensão contemporânea não poderia permanecer limitada à concepção puramente física existente quando o Regimento foi elaborado.
É importante identificar os fundamentos e seus autores porque nem toda razão exposta por um ministro pode ser automaticamente atribuída ao colegiado como se integrasse indistintamente uma única fundamentação.
Mas o problema jurídico permanece.
O argumento possui lógica identificável.
Uma instituição não deixa de ser atingida porque a agressão chega por uma rede de computadores em vez de atravessar fisicamente a porta de seu edifício.
Entretanto, esse raciocínio responde a uma pergunta diferente.
O artigo 43 não procurava estabelecer onde o Supremo poderia ser vítima de uma infração.
Estabelecia quando o próprio Supremo poderia exercer atribuição investigatória extraordinária.
A diferença é decisiva.
A questão não era apenas se uma publicação realizada na internet poderia atingir o Supremo.
Evidentemente poderia.
Era saber se esse fato permitia considerar satisfeita a exigência de ocorrência da infração “na sede ou dependência do Tribunal”.
Em outras palavras:
exercer jurisdição em todo o território nacional significa possuir sede ou dependência em todo o território nacional?
Jurisdição e sede não são conceitos equivalentes.
Jurisdição delimita o âmbito de exercício da autoridade.
Sede ou dependência identifica, ordinariamente, espaço institucional.
A passagem de um conceito ao outro merece, portanto, escrutínio especialmente rigoroso quando dela resulta ampliação de competência.
- A FINALIDADE DO LIMITE
Há uma pergunta hermenêutica que frequentemente recebe menos atenção do que deveria.
Costuma-se perguntar:
qual é a finalidade da norma que atribui determinado poder?
Mas, quando se trata de competência, existe outra pergunta igualmente importante:
qual é a finalidade do limite imposto a esse poder?
“Sede ou dependência” pode não ser simplesmente descrição geográfica antiquada concebida antes da internet.
Pode ser precisamente o elemento destinado a circunscrever uma competência extraordinária ao espaço em que se exerce a polícia interna da Corte.
Nesse caso, a dificuldade produzida pelo limite não constitui defeito interpretativo.
É sua função.
A hermenêutica não pode olhar apenas para a finalidade de proteger o Tribunal.
Precisa olhar também para a finalidade de impedir que um poder extraordinário de polícia interna se converta em competência investigatória sem fronteira equivalente.
O Supremo possuía uma finalidade legítima a proteger.
Mas a norma possuía também uma função limitadora.
A pergunta passa então a ser:
quando “sede ou dependência” pode alcançar fatos praticados fora da sede e das dependências, qual conteúdo limitador ainda resta à expressão?
Toda norma limitadora precisa conservar algum significado resistente à vontade daquele que está submetido a ela.
Uma fronteira que pode ser deslocada pelo próprio sujeito limitado sempre que a finalidade do caso pareça justificar sua ampliação perde parte de sua capacidade de contenção.
- A ADPF 572 E A EXCEPCIONALIDADE RECONHECIDA
Em 18 de junho de 2020, o Plenário concluiu o julgamento da ADPF 572.
Por dez votos a um, vencido o ministro Marco Aurélio, prevaleceu a posição pela constitucionalidade da Portaria e pela continuidade do Inquérito 4.781.
Esse dado deve ser apresentado integralmente.
O Supremo não formulou simplesmente autorização abstrata para que o Tribunal investigasse crimes praticados contra seus membros.
A decisão procurou delimitar a solução às circunstâncias examinadas e estabeleceu condicionantes para a investigação.
Essa cautela é relevante.
Ela demonstra que a própria Corte reconhecia a natureza excepcional da situação.
E exatamente por isso surge questão institucional ainda mais interessante:
é possível manter confinada às circunstâncias de determinado caso uma interpretação que modifica o significado atribuído a uma norma de competência?
Uma providência pode ser declarada excepcional.
Uma interpretação, depois de formulada, passa a integrar o repertório argumentativo do sistema.
A distinção é importante.
A decisão pode dizer:
isto vale para estas circunstâncias.
Mas a razão jurídica empregada para chegar a essa decisão passa a existir independentemente delas.
Outros atores podem invocá-la.
Outros tribunais podem compará-la às suas próprias normas.
Outras situações podem parecer suficientemente semelhantes.
A excepcionalidade, então, começa a adquirir capacidade de reprodução.
- UMA REGRA EXCEPCIONAL E O PROBLEMA DA RECEPÇÃO
O problema torna-se mais complexo quando se considera a origem normativa do artigo 43.
O Regimento do Supremo é anterior à Constituição de 1988 e foi produzido sob ordem constitucional que conferia ao Tribunal competência normativa distinta da atualmente existente.
Com a Constituição de 1988, a União passou a deter competência privativa para legislar sobre direito processual, enquanto os tribunais elaboram seus regimentos internos dentro dos limites constitucionais e processuais estabelecidos pela nova ordem.
A jurisprudência do próprio Supremo reconhece que normas processuais de seu Regimento anterior à Constituição podem ter sido recepcionadas, quando materialmente compatíveis com ela, com força legal.
A premissa precisa ser aceita para que a crítica seja corretamente formulada.
Não se sustenta aqui, como fato jurídico já demonstrado, que o artigo 43 não tenha sido recepcionado.
O Supremo afirma que foi.
A pergunta é mais específica:
qual conteúdo normativo foi recepcionado?
Uma coisa é reconhecer a sobrevivência constitucional de norma que atribui ao Presidente providências diante de infração ocorrida na sede ou dependência do Tribunal.
Outra é concluir que a recepção da norma original implica também a legitimidade constitucional de toda expansão interpretativa que posteriormente venha a ser extraída dela.
Recepção não é salvo-conduto interpretativo.
A norma somente sobrevive porque seu conteúdo é considerado compatível com a nova Constituição.
A interpretação superveniente também precisa permanecer submetida a essa Constituição.
Daí a pergunta:
qual artigo 43 foi recepcionado?
Não se questiona aqui a conclusão formal do Supremo de que o artigo 43 foi recepcionado com força de lei.
Questiona-se se a recepção da norma implica igualmente a recepção antecipada de todo conteúdo que dela venha posteriormente a ser extraído por interpretação.
8.1. O teste da norma nova
Há uma maneira simples de visualizar o problema.
Imagine-se que o artigo 43 não existisse.
Poderia o Supremo, depois de 1988, introduzir em seu Regimento norma estabelecendo que determinadas condutas praticadas pela internet, fora de suas dependências, contra a Corte, seus ministros ou familiares poderiam ser investigadas pelo próprio Tribunal mediante inquérito instaurado pela Presidência e conduzido por ministro por ela designado?
A pergunta é deliberadamente contrafactual.
Sua função é testar a natureza da interpretação.
Se uma norma nova com esse conteúdo encontrasse obstáculos decorrentes da reserva legislativa da União ou de outras garantias constitucionais, surgiria uma dificuldade teórica:
pode a interpretação de norma pré-constitucional produzir conteúdo que a ordem constitucional vigente não permitiria criar pelo mesmo instrumento normativo?
A anterioridade do artigo 43 explica por que a norma original pôde sobreviver mediante recepção.
Não resolve automaticamente a constitucionalidade de qualquer expansão posterior de seu significado.
- A MAIORIA NÃO ENCERRA O PROBLEMA — TORNA-O INSTITUCIONAL
A constitucionalidade do Inquérito 4.781 não permaneceu sustentada apenas pela decisão de seu condutor ou pelo ato do Presidente que determinou sua instauração.
A questão chegou ao Plenário.
E a Corte, por dez votos a um, considerou constitucional a solução.
Esse dado é fundamental.
Mas sua consequência para esta análise talvez seja diferente daquela que inicialmente se poderia imaginar.
O fato de a excepcionalidade ter sido acolhida pela maioria não elimina a discussão sobre seus limites.
Transforma uma questão individual em questão institucional.
As objeções foram apresentadas ao Plenário.
Foram debatidas a natureza extraordinária da investigação, as garantias processuais e a interpretação do artigo 43.
Conhecendo essas objeções, a maioria confirmou a constitucionalidade do ato.
Há, porém, diferença entre autoridade da decisão e força do argumento.
A primeira decorre da posição constitucional ocupada pelo Supremo.
A segunda permanece sujeita à crítica jurídica.
A jurisdição constitucional resolve controvérsias com autoridade.
Não elimina a possibilidade de examinar criticamente as razões utilizadas para resolvê-las.
Isso se torna especialmente importante quando a controvérsia diz respeito aos próprios poderes da instituição encarregada de decidi-la.
A excepcionalidade recebeu chancela institucional.
E uma interpretação acolhida pela mais alta Corte possui capacidade de irradiação muito superior à de uma decisão individual.
Decisões individuais podem produzir excessos. Decisões institucionais podem produzir modelos.
- QUANDO O EXEMPLO COMEÇA A DESCER
Não foi necessário esperar muito para que a capacidade de reprodução dessa fundamentação deixasse o terreno puramente teórico.
Em 19 de fevereiro de 2021, aproximadamente oito meses depois do julgamento da ADPF 572, o então Presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Humberto Martins, editou a Portaria STJ/GP nº 58.
O ato instaurou inquérito para apurar fatos relacionados a supostas tentativas de violação da independência jurisdicional e intimidação de ministros do STJ.
E aqui existe dado documental particularmente importante.
A própria Portaria registrou como fundamento que o artigo 43 do Regimento do STF — que, segundo o ato, possuía redação idêntica à do artigo 58 do Regimento do STJ — e a Portaria 69/2019 haviam sido considerados constitucionais no julgamento da ADPF 572.
Não se trata, portanto, de inferir que a decisão do Supremo poderia inspirar outros tribunais.
Ela foi expressamente invocada.
A cronologia merece atenção.
Em junho de 2020, o Supremo validava uma solução apresentada como vinculada às circunstâncias específicas que justificaram o Inquérito 4.781.
Em fevereiro de 2021, a fundamentação da ADPF 572 já aparecia expressamente em ato de outro Tribunal destinado a justificar a instauração de inquérito próprio.
A exceção ainda estava acompanhada da advertência de que se justificava pelas circunstâncias específicas que a haviam produzido quando sua fundamentação já começava a ser invocada fora delas.
Talvez nenhuma formulação abstrata demonstre com tanta clareza o problema da normalização.
- A RECLAMAÇÃO 46.177 E O PARADOXO DO STJ
A controvérsia chegou novamente ao Supremo na Reclamação 46.177.
É importante fazer aqui uma precisão.
Não foi o STJ que ajuizou a reclamação.
A reclamação foi proposta pela União no contexto da controvérsia judicial envolvendo a Portaria do STJ.
Entre os argumentos apresentados, procurou-se estabelecer relação entre a interpretação adotada na ADPF 572 e a norma regimental do Superior Tribunal de Justiça.
O argumento possuía coerência interna:
se a realidade digital e o alcance nacional da jurisdição participavam da compreensão ampliada de “sede ou dependência” no caso do Supremo, por que raciocínio semelhante não poderia ser considerado em relação a outro Tribunal de jurisdição nacional cujo Regimento possuía disposição semelhante?
O Supremo não acolheu a reclamação.
Mas é essencial não atribuir à decisão aquilo que ela não decidiu.
O STF não estabeleceu, na Rcl 46.177, uma tese de mérito segundo a qual determinada interpretação seria materialmente válida para o Supremo e proibida para o STJ.
A reclamação encontrou obstáculo, entre outros aspectos, na ausência de aderência estrita entre o paradigma invocado e o ato questionado.
A decisão também destacou uma diferença normativa importante.
O Regimento do Supremo é anterior à Constituição de 1988 e suas disposições processuais recepcionadas possuem situação jurídica peculiar.
O Regimento do STJ foi produzido sob a Constituição vigente, que reserva à União competência privativa para legislar sobre direito processual.
Essa distinção possui relevância jurídica e não deve ser ocultada.
Mas justamente por ser relevante produz nova pergunta.
11.1. O paradoxo
Se o STJ não poderia criar por Regimento, depois de 1988, determinada competência processual por estar submetido à reserva legislativa estabelecida pela Constituição, até onde pode o STF chegar mediante interpretação expansiva de norma regimental anterior à Constituição?
A resposta não pode estar apenas na idade da norma.
A anterioridade explica a possibilidade de recepção.
Mas recepção pressupõe compatibilidade material com a Constituição nova.
É possível aceitar simultaneamente duas proposições:
o artigo 43 foi recepcionado;
e
o significado posteriormente extraído desse artigo continua sujeito à Constituição que o recepcionou.
A questão torna-se então mais precisa:
como uma norma excepcional anterior à Constituição, recepcionada em razão de sua compatibilidade material com a nova ordem, pode receber interpretação que produza um poder que outro Tribunal não poderia instituir regimentalmente sob essa mesma ordem constitucional?
Talvez o problema não esteja na recepção do artigo 43.
Esteja na amplitude da norma que se pretende extrair dele depois da recepção.
- O TESTE DO CASUÍSMO
O episódio do STJ oferece teste particularmente útil para interpretações produzidas diante de situações excepcionais.
A pergunta é:
a razão jurídica utilizada para ampliar determinado poder conserva a mesma força quando outro órgão pretende utilizá-la para ampliar seu próprio poder?
Uma interpretação demonstra maior consistência quando suas razões podem ser generalizadas independentemente da identidade de quem será beneficiado por elas.
Isso não significa ignorar diferenças jurídicas relevantes.
A posição normativa dos Regimentos do STF e do STJ é efetivamente distinta e precisa ser considerada.
Mas essa distinção não elimina o fenômeno institucional que interessa a este artigo.
A construção utilizada no Supremo forneceu argumento para outra Corte justificar inquérito próprio.
Poucos meses separaram os dois acontecimentos.
A interpretação começava a circular.
O exemplo começava a descer.
- AUTOCONTENÇÃO NÃO É CONTENÇÃO
Diante da posição institucional ocupada por uma Suprema Corte, costuma-se recorrer à ideia de autocontenção judicial.
Espera-se que a Corte, reconhecendo a extensão de sua autoridade e a inexistência de outro tribunal nacional acima dela, exerça seus poderes com especial prudência.
Mas existe fragilidade nessa resposta.
Autocontenção não é contenção.
A contenção é produzida por barreira que independe da vontade daquele que exerce o poder.
A autocontenção depende da decisão do próprio titular do poder de não ultrapassar determinada fronteira.
O constitucionalismo foi construído precisamente para não depender exclusivamente dessa disposição.
Competência, juiz natural, separação de funções, distribuição e contraditório não são conselhos de prudência.
São mecanismos destinados a retirar determinadas escolhas da disponibilidade daquele que exerce o poder.
A autocontenção pergunta:
até onde devo ir?
O limite jurídico afirma:
daqui não posso passar.
Quando a segunda resposta começa a depender da primeira, algo importante se modifica.
13.1. O poder e a moderação
Não é necessário atribuir má-fé, intenção política específica ou disposição psicológica autoritária a qualquer julgador para reconhecer o problema.
Ele é estrutural.
O exercício continuado do poder possui sua própria dinâmica institucional.
Cada competência exercida torna mais familiar o exercício seguinte.
Cada excepcionalidade reconhecida oferece linguagem jurídica para outra situação excepcional.
Aquilo que ontem exigia justificação extraordinária pode amanhã aparecer como instrumento disponível.
Pode-se dizer, em sentido institucional, que o poder possui algo de inebriante.
Não se trata de diagnóstico sobre a personalidade de seus titulares.
Trata-se de antiga razão para a existência do constitucionalismo:
quanto maior a capacidade de agir, maior a necessidade de limites que não dependam exclusivamente da moderação de quem age.
É precisamente para isso que existem barreiras.
13.2. Quem guarda o guardião?
A Constituição atribuiu ao Supremo, precipuamente, sua guarda.
Mas ser guardião da Constituição não significa ser titular da Constituição.
A competência para interpretar o Direito não pode equivaler a competência ilimitada para redefinir os próprios poderes.
Surge aqui um paradoxo inevitável:
a norma limita o Tribunal;
o Tribunal interpreta a norma;
a interpretação define o alcance do limite;
e, quando essa interpretação é questionada, o próprio Tribunal decide se ultrapassou a Constituição.
Essa estrutura decorre, em parte, da própria existência de uma Suprema Corte.
É justamente por isso que interpretações expansivas dos próprios poderes exigem escrutínio especialmente rigoroso.
Quanto menor o controle externo, maior deveria ser a resistência institucional à expansão da própria competência.
- O PRECEDENTE QUE NÃO ESTÁ NA EMENTA
É aqui que o título deste artigo revela seu significado mais amplo.
O exemplo que vem de cima não precisa assumir a forma de súmula ou precedente vinculante.
Pode ser metodológico.
A mais alta Corte demonstra, por seus próprios atos, como uma barreira jurídica pode ser enfrentada diante de circunstância considerada extraordinária.
A mensagem institucional está no método.
Existe uma regra.
O caso parece grave demais para a resposta que sua leitura ordinária permite.
Identifica-se uma finalidade constitucionalmente legítima.
A regra recebe interpretação mais ampla.
A barreira é superada.
A decisão produz o resultado considerado necessário.
E a instância máxima confirma a solução.
O que o sistema aprende?
Não necessariamente o conteúdo específico da decisão.
Pode aprender algo mais profundo:
que a gravidade do caso pode participar da redefinição da própria barreira destinada a limitar o poder.
Esse método possui capacidade de reprodução.
O juiz de primeiro grau não possui os poderes constitucionais do Supremo.
Mas também enfrenta crimes graves, conflitos dramáticos, fraudes aparentemente evidentes, devedores que parecem ocultar patrimônio e situações nas quais a resposta jurídica ordinária lhe parece insuficiente.
Também pode estar sinceramente convencido de que determinada providência é necessária.
É nesse momento que o exemplo institucional importa.
Não é necessário que o Supremo determine:
“façam como fizemos”.
Basta demonstrar que, diante de finalidade considerada suficientemente relevante, o limite pode ser reinterpretado.
- A NOITE ESCURECE AOS POUCOS
Há processos de transformação institucional que somente se tornam evidentes quando já avançaram consideravelmente.
A ruptura aberta é fácil de identificar.
Quando alguém anuncia que não obedecerá à Constituição ou que exercerá poder que reconhecidamente não possui, o conflito aparece com nitidez.
Mais difícil é perceber a erosão que ocorre dentro da própria linguagem do Direito.
Ela não anuncia necessariamente a supressão de uma garantia.
Começa por reconhecer que a garantia existe, mas que aquele caso é excepcional.
Não nega a regra.
Explica por que, naquela circunstância, ela precisa ser interpretada de maneira diferente.
Não rejeita o limite.
Redefine seu alcance.
Não abandona a Constituição.
Invoca a própria Constituição como fundamento para a excepcionalidade.
É por isso que talvez uma imagem simples descreva melhor o fenômeno:
a noite escurece aos poucos.
Entre a claridade e a escuridão não existe necessariamente um instante preciso em que todos percebam que a paisagem mudou.
A luminosidade diminui gradualmente.
Os olhos se acostumam.
Aquilo que alguns minutos antes pareceria escuro passa a parecer normal porque a própria referência também se modificou.
Com as instituições pode ocorrer algo semelhante.
A primeira excepcionalidade provoca desconforto.
A segunda encontra o precedente da primeira.
A terceira já não parece tão extraordinária.
A quarta é comparada às anteriores e, justamente por isso, pode parecer moderada.
A cada etapa, a referência se desloca.
E aquilo que antes exigiria enorme esforço de justificação passa progressivamente a integrar o repertório ordinário do poder.
15.1. A primeira excepcionalidade ainda se reconhece como exceção
O maior risco talvez não esteja na primeira medida excepcional.
A primeira ainda se reconhece como exceção.
Justifica-se longamente.
Invoca circunstâncias extraordinárias.
Afirma sua necessidade.
Procura demonstrar que não se repetirá fora daquele contexto.
O problema aparece quando a solução ingressa no repertório institucional.
Depois que uma barreira foi atravessada uma vez, a discussão seguinte já não começa no mesmo lugar.
Existe precedente.
Existe linguagem jurídica.
Existe decisão anterior demonstrando que aquilo pode ser feito em determinadas circunstâncias.
A fronteira deslocou-se.
É assim que a excepcionalidade pode se normalizar sem jamais declarar-se normal.
O episódio do STJ fornece exemplo concreto dessa dinâmica.
A solução da ADPF 572 fora apresentada dentro das circunstâncias próprias do Inquérito 4.781.
Meses depois, a decisão já era expressamente invocada em Portaria de outro Tribunal como fundamento para a instauração de outro inquérito.
A primeira excepcionalidade ainda se explicava como exceção.
Sua fundamentação, porém, já começava a procurar novas aplicações.
15.2. A erosão a pretexto de defesa
Talvez o aspecto mais delicado desse processo esteja em sua justificativa.
O Estado de Direito não precisa ser enfraquecido apenas por aqueles que se declaram seus adversários.
Pode ser enfraquecido também a pretexto de defendê-lo.
A ameaça é apresentada como extraordinária.
A defesa precisa ser igualmente extraordinária.
Uma garantia torna a resposta mais difícil.
A garantia é flexibilizada.
Um limite impede determinada providência.
O limite é reinterpretado.
Uma competência parece insuficiente.
Seu alcance é ampliado.
Tudo isso pode ocorrer acompanhado de finalidades constitucionalmente relevantes: proteção das instituições, defesa da democracia, repressão ao crime, preservação da ordem constitucional.
É justamente isso que torna o fenômeno mais difícil de perceber.
Não há necessariamente conflito declarado entre a medida excepcional e o Estado de Direito.
A medida apresenta-se como instrumento de defesa do próprio Estado de Direito.
Surge então o paradoxo:
para proteger a ordem constitucional, flexibilizam-se as garantias que caracterizam essa mesma ordem constitucional.
15.3. Defender a democracia com os instrumentos da democracia
Democracias possuem o direito — e o dever — de se defender.
Não são obrigadas a permanecer passivas diante de movimentos que pretendam destruí-las.
Mas essa afirmação não resolve a questão dos meios.
Ao contrário.
Torna-a ainda mais importante.
Se, para defender o Estado de Direito, admitirmos que suas próprias limitações possam ser afastadas sempre que a ameaça for considerada suficientemente grave, cria-se fórmula perigosa:
quanto maior a ameaça percebida, menores poderão ser as limitações impostas àquele que afirma combatê-la.
Essa lógica contém tendência expansiva.
Porque a definição da excepcionalidade passa a determinar a extensão do poder considerado necessário para enfrentá-la.
É precisamente nesse momento que deve retornar a inversão proposta neste artigo:
no Direito, os fins não justificam os meios.
Defender a democracia é um fim legítimo.
Os meios utilizados para defendê-la precisam permanecer democráticos.
Defender a Constituição é um fim legítimo.
Os instrumentos empregados precisam permanecer constitucionais.
Defender o Estado de Direito não pode significar suspender progressivamente aquilo que faz dele um Estado de Direito.
15.4. Quando percebemos que escureceu?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis do constitucionalismo.
Em que momento uma sucessão de medidas excepcionais deixa de representar respostas extraordinárias a problemas extraordinários e passa a modificar a própria cultura jurídica?
Não existe necessariamente uma linha evidente.
É por isso que cada limite precisa ser examinado quando é atravessado — e não apenas quando já não restam muitos limites a examinar.
A metáfora retorna:
a noite escurece aos poucos.
E, justamente porque escurece aos poucos, quem permanece dentro dela pode se acostumar à diminuição da luz.
O papel das garantias constitucionais é impedir que essa adaptação progressiva transforme excepcionalidade em normalidade.
O papel da crítica jurídica é perceber o deslocamento antes que a distância entre o ponto de partida e o ponto de chegada pareça natural.
15.5. O verdadeiro teste da barreira
As garantias não existem apenas enquanto são convenientes.
Os limites não existem apenas para os tempos tranquilos.
E o devido processo não foi concebido apenas para aqueles cuja defesa desperta simpatia.
Se o Estado de Direito somente respeitar suas próprias barreiras quando não houver razão importante para ultrapassá-las, essas barreiras terão pouca utilidade.
O verdadeiro teste ocorre quando respeitá-las custa alguma coisa.
Quando dificulta.
Quando atrasa.
Quando impede a solução considerada mais eficiente.
Quando obriga o poder a reconhecer:
“isto pode ser necessário, mas não me compete fazê-lo desta maneira.”
É nesse momento que o limite demonstra que realmente existe.
Porque o Estado de Direito não começa a desaparecer apenas quando alguém decide destruí-lo.
Pode começar a enfraquecer quando aqueles que pretendem defendê-lo se convencem de que, para salvá-lo, precisam ultrapassar as barreiras que ele próprio estabeleceu.
E quase nunca isso acontece de uma só vez.
A noite escurece aos poucos.
- CONCLUSÃO — O EXEMPLO VEM DE CIMA
O problema institucional revelado pelo Inquérito 4.781 não depende de demonstrar que todas as medidas adotadas no procedimento foram ilegais.
Também não exige negar a existência de ameaças contra ministros ou contra as instituições democráticas.
A questão é anterior.
Havia uma norma destinada a delimitar uma competência extraordinária.
A norma continha uma barreira.
Diante de situação considerada extraordinária, essa barreira recebeu interpretação que ampliou o espaço dentro do qual a própria autoridade poderia exercer aquela competência.
A interpretação foi posteriormente confirmada pela instituição cuja competência estava em discussão.
É importante reconhecer integralmente o outro lado do argumento.
O Supremo considerou a situação excepcional, afirmou a necessidade de proteção institucional e validou a Portaria por ampla maioria, impondo também limites à investigação.
Esses fatos fazem parte da análise.
Mas não encerram a questão constitucional.
Ao contrário.
Permitem formulá-la com maior precisão:
pode a excepcionalidade do fato ampliar a competência daquele que deve enfrentá-lo?
É aqui que hermenêutica, forma, finalidade e poder se encontram.
Uma finalidade legítima não cria competência.
A necessidade de determinada providência não demonstra a competência daquele que pretende adotá-la.
A importância do fim não elimina a necessidade de legitimidade do meio.
E a interpretação de uma norma limitadora não deveria retirar dela toda capacidade de limitar.
O arbítrio não precisa começar quando uma autoridade anuncia que não obedecerá ao Direito.
Existe fenômeno institucional mais difícil de identificar:
o próprio exercício do poder pode passar a redefinir, diante das necessidades do caso concreto, o alcance das regras destinadas a contê-lo.
Nesse momento, a exceção deixa de ser apenas resposta extraordinária.
Produz método.
O método produz precedente.
O precedente produz linguagem.
E essa linguagem começa a circular pelo sistema.
No caso examinado, essa circulação não é apenas hipótese teórica.
Em junho de 2020, o Supremo concluiu a ADPF 572 por dez votos a um.
Em fevereiro de 2021, a Presidência do STJ editou sua própria Portaria de instauração de inquérito e mencionou expressamente o artigo 43 do RISTF e a decisão proferida na ADPF 572 como fundamentos.
A tentativa posterior de transportar a solução para o STJ encontrou obstáculos jurídicos no Supremo, inclusive decorrentes da posição normativa distinta dos dois Regimentos.
Mas o fenômeno institucional já havia ocorrido.
O exemplo fora percebido.
O argumento fora reproduzido.
É precisamente por isso que há uma pergunta que deveria acompanhar qualquer interpretação destinada a ampliar poderes estatais:
aceitaríamos a mesma interpretação se esse mesmo poder estivesse amanhã nas mãos de pessoas em quem não confiamos?
Uma boa regra constitucional precisa sobreviver a esse teste.
Não pode depender da identidade de quem exerce o poder, da popularidade da finalidade perseguida ou da confiança pessoal depositada no julgador.
O constitucionalismo significa justamente substituir confiança por limites.
E talvez seja necessário acrescentar:
por limites que permaneçam limites quando respeitá-los se torna inconveniente.
É por isso que a ideia de autocontenção, embora importante, não basta.
Autocontenção não é contenção.
O Estado de Direito não pode depender exclusivamente da esperança de que aquele que possui poder suficiente para ultrapassar uma barreira escolha voluntariamente não fazê-lo.
A questão examinada neste artigo, portanto, ultrapassa o Inquérito 4.781.
O caso importa porque permite observar um método.
E métodos empregados no vértice de uma estrutura institucional possuem capacidade de irradiação.
O juiz de primeiro grau não possui os poderes do Supremo Tribunal Federal.
O Tribunal local não ocupa sua posição constitucional.
O Superior Tribunal de Justiça possui competências próprias.
Mas todos observam a forma pela qual a mais alta Corte interpreta competência, excepcionalidade, finalidade e limites.
Não é necessário que exista ordem para imitação.
O exemplo institucional possui sua própria força.
Decisões individuais podem produzir excessos.
Decisões institucionais podem produzir modelos.
E modelos produzidos no vértice do Poder Judiciário dificilmente permanecem confinados ao lugar em que nasceram.
Por isso, talvez a questão mais importante não seja saber se determinada medida excepcional produziu resultado considerado necessário naquele momento.
É saber o que permanecerá depois dela.
Qual conceito foi ampliado.
Qual barreira foi deslocada.
Qual método interpretativo foi legitimado.
E qual será o ponto de partida da próxima excepcionalidade.
Porque, no Estado de Direito, os fins não justificam os meios.
São os meios juridicamente legítimos que conferem legitimidade aos fins perseguidos pelo poder.
E, quando a mais alta Corte ensina pelo próprio exercício do poder que determinadas barreiras podem ser reinterpretadas diante da excepcionalidade, essa lição não termina necessariamente no processo em que foi produzida.
O exemplo vem de cima?
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SEMANA DA PÁTRIA:
INDEPENDÊNCIA, LIBERDADE E ESTADO DE DIREITO
por Jaison Vieira | Advogado
02/09/2026
A Semana da Pátria é tradicionalmente um momento de celebração da Independência do Brasil. Mais do que recordar um acontecimento ocorrido há mais de dois séculos, porém, é também uma oportunidade de refletirmos sobre aquilo que verdadeiramente sustenta uma nação livre.
A independência de um país não se encerra na conquista de sua soberania. Ela precisa ser reafirmada diariamente pela solidez de suas instituições, pelo respeito à Constituição, pela preservação das liberdades e pela submissão de todos ao Direito.
Em uma República, ninguém está acima da lei. O poder não constitui privilégio, mas responsabilidade. E as instituições somente cumprem plenamente sua missão quando atuam dentro dos limites que a Constituição lhes estabelece.
Essa é uma das grandes conquistas de uma sociedade democrática: compreender que a liberdade não pode depender da vontade daqueles que circunstancialmente exercem o poder. Ela deve estar protegida por instituições, por leis e, sobretudo, por uma ordem constitucional que assegure direitos a todos.
Mas a construção da Pátria não é responsabilidade apenas do Estado e de suas instituições.
Ela começa também em cada cidadão.
Cidadania não significa somente reivindicar direitos. Significa reconhecer deveres, respeitar as diferenças, agir com responsabilidade e compreender que o destino de uma nação também é resultado das pequenas escolhas feitas diariamente por aqueles que nela vivem.
Patriotismo, nesse sentido, não exige concordância permanente, tampouco impede a crítica. Amar um país é desejar que ele seja melhor. É preservar aquilo que conquistamos e assumir a responsabilidade por aquilo que ainda precisamos construir.
Há mais de dois séculos, o Hino da Independência anunciou:
“Já podeis, da Pátria filhos,
ver contente a mãe gentil;
já raiou a liberdade
no horizonte do Brasil.”
Esses versos talvez guardem uma das mais belas mensagens para a Semana da Pátria.
Somos os filhos da Pátria de que fala o Hino.
E cabe a cada geração fazer com que essa “mãe gentil” possa continuar a ver, em seus filhos, razões para estar contente.
Isso exige mais do que celebrar símbolos ou recordar datas. Exige compromisso com a liberdade, respeito ao próximo, responsabilidade no exercício da cidadania e consciência de que nenhum país se torna melhor apenas pela ação daqueles que o governam. Uma nação é, em grande medida, o reflexo daquilo que seus próprios cidadãos fazem dela.
A independência precisa ser preservada.
A liberdade precisa ser protegida.
O Direito precisa valer para todos.
E a Pátria precisa ser construída todos os dias.
Nesta Semana da Pátria, que possamos olhar para nossa bandeira não apenas como símbolo do país que recebemos de tantas gerações que nos antecederam, mas também como representação de um compromisso com aqueles que ainda virão.
Que possamos não apenas celebrar o Brasil que recebemos, mas assumir, cada um de nós, a responsabilidade pelo Brasil que deixaremos.
j.vieira@jvadvocacia.adv.br

RESUMO
Discussões fazem parte das relações humanas e frequentemente são acompanhadas de palavras ásperas, manifestações de raiva, ressentimento e até promessas de retribuição. A utilização massiva de aplicativos de mensagens e outros meios digitais acrescentou, porém, uma característica nova a esses conflitos: manifestações anteriormente efêmeras podem permanecer registradas, ser reproduzidas e posteriormente utilizadas como prova em investigação ou processo criminal.
O presente artigo examina o crime de ameaça previsto no art. 147 do Código Penal sob perspectivas histórica, dogmática, jurisprudencial e sociológica. Parte-se de uma premissa confirmada pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça: o fato de determinada manifestação ocorrer em contexto de discussão, cólera ou ira não exclui, por si só, sua tipicidade. Isso, entretanto, não significa que toda promessa de mal pronunciada durante um conflito constitua ameaça penalmente relevante.
A configuração do delito continua exigindo a presença dos elementos objetivos e subjetivos do tipo: anúncio de mal injusto e grave, seriedade e idoneidade intimidativa da manifestação e dolo dirigido à intimidação. Propõe-se, assim, que a análise penal recaia sobre o ato comunicacional contextualizado, e não apenas sobre uma frase isoladamente considerada.
Palavras-chave: ameaça; art. 147 do Código Penal; dolo; ira; liberdade psíquica; comunicação digital; intervenção mínima.
1. INTRODUÇÃO
Poucos crimes demonstram tão claramente a delicada fronteira entre comportamento humano socialmente reprovável e conduta penalmente relevante quanto o crime de ameaça.
As relações humanas são naturalmente permeadas por conflitos. Pessoas discutem por dinheiro, patrimônio, ciúmes, relações familiares, negócios, trânsito, vizinhança, trabalho, separações afetivas e incontáveis acontecimentos cotidianos.
Nessas situações, especialmente quando existe envolvimento emocional intenso, não é incomum que alguém diga algo que, fora daquele contexto, jamais diria.
A raiva produz exageros. A frustração produz acusações. O sentimento de injustiça pode despertar desejo de retribuição. Uma discussão pode produzir frases como “você vai me pagar”, “isso não vai ficar assim”, “você vai se arrepender”, “vou acabar com você” ou manifestações ainda mais graves.
Algumas dessas expressões podem constituir verdadeira ameaça criminal.
Outras podem representar bravatas, desabafos, hipérboles, impropérios ou manifestações momentâneas de hostilidade.
O problema jurídico está justamente em distingui-las.
O art. 147 do Código Penal não criminaliza a raiva. Não criminaliza o ressentimento. Não criminaliza o desejo íntimo de vingança. Tampouco criminaliza genericamente palavras agressivas.
Criminaliza a conduta de ameaçar alguém de causar-lhe mal injusto e grave.
Essa aparente simplicidade legislativa esconde questão muito mais complexa:
quando uma frase pronunciada em um conflito humano deixa de representar mera exteriorização de raiva e passa a constituir verdadeira intimidação penalmente relevante?
A questão adquiriu importância ainda maior com a transformação tecnológica das relações sociais.
Independentemente de se afirmar que a tecnologia tenha tornado as pessoas mais impulsivas, é certo que ampliou extraordinariamente a capacidade de registrar, reproduzir e preservar manifestações impulsivas.
Discussões que anteriormente se dissipavam juntamente com o momento de exaltação podem hoje permanecer registradas em mensagens, áudios, vídeos, e-mails e redes sociais.
Uma frase escrita durante poucos segundos de exaltação pode ser apresentada meses depois em uma delegacia ou audiência judicial.
Surge daí um duplo desafio: proteger adequadamente quem efetivamente sofre intimidação e, simultaneamente, impedir que todo conflito verbal seja automaticamente transformado em questão criminal.
2. A AMEAÇA COMO FENÔMENO ANTERIOR AO DIREITO PENAL
A ameaça evidentemente não nasceu com sua previsão legislativa.
Muito antes da existência dos modernos sistemas penais, anunciar a possibilidade de um mal constituía mecanismo de exercício de poder sobre outra pessoa.
Existe uma característica peculiar nesse comportamento: quem ameaça não precisa executar imediatamente qualquer violência.
A eficácia da ameaça reside precisamente na antecipação psicológica do mal.
O acontecimento anunciado pertence ao futuro; seus efeitos sobre a liberdade do destinatário podem surgir imediatamente.
A pessoa que considera séria determinada ameaça pode modificar caminhos, horários, relacionamentos, decisões profissionais e hábitos pessoais. Pode evitar lugares, interromper relações ou passar a organizar sua rotina em função da possibilidade de concretização do mal anunciado.
A estrutura temporal da ameaça pode, assim, ser resumida:
o mal anunciado projeta-se para o futuro; a intimidação opera no presente.
É justamente essa antecipação que explica a intervenção penal.
O Direito não precisa esperar que aquele que promete matar tente efetivamente matar, nem que aquele que promete agredir concretize a agressão.
Há um bem jurídico anterior à própria integridade física que merece proteção: a liberdade de conduzir a própria existência sem submissão à intimidação ilícita de terceiros.
3. A OPÇÃO DO LEGISLADOR BRASILEIRO
O Código Penal inseriu o delito de ameaça entre os crimes contra a liberdade individual.
O art. 147 atualmente estabelece:
“Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave.”
A pena é de detenção de um a seis meses ou multa.
A amplitude dos meios descritos pelo legislador demonstra que a ameaça não depende de forma determinada.
Pode ocorrer presencialmente, por escrito, mediante gesto ou qualquer outro meio simbólico.
Isso permite naturalmente que o dispositivo alcance os meios contemporâneos de comunicação.
Mensagem escrita, áudio, vídeo, fotografia ou símbolo podem, conforme o conteúdo e as circunstâncias, transmitir uma ameaça.
A tecnologia alterou os meios.
A estrutura fundamental do comportamento permaneceu a mesma: comunicar a outra pessoa a perspectiva de um mal injusto e grave.
4. O BEM JURÍDICO: LIBERDADE PSÍQUICA E AUTODETERMINAÇÃO
A localização sistemática do art. 147 auxilia na compreensão da finalidade da norma.
A ameaça não constitui primordialmente crime contra a honra.
O núcleo de proteção está relacionado à liberdade individual em sua dimensão psíquica: a possibilidade de alguém conduzir sua vida e tomar suas decisões sem estar submetido à intimidação ilícita produzida por outra pessoa.
Isso explica por que o Direito Penal pode atuar antes da execução do mal anunciado.
A lesão juridicamente relevante não depende necessariamente de uma agressão física posterior.
A própria utilização de uma promessa séria de mal como instrumento de intimidação pode atingir a liberdade do destinatário.
Mas essa constatação também estabelece um limite importante.
Se o fundamento da criminalização é a intimidação, não basta que determinada palavra seja desagradável, ofensiva ou socialmente reprovável.
É necessário que a conduta apresente as características próprias do delito.
5. O DIREITO PENAL NÃO PUNE SENTIMENTOS
Uma pessoa pode odiar outra.
Pode desejar intimamente que ela fracasse.
Pode sentir raiva, ressentimento, ciúme ou desejo de vingança.
Pode inclusive imaginar determinada agressão.
Esses estados internos, isoladamente considerados, não configuram o crime de ameaça.
O problema jurídico surge com a exteriorização.
Mesmo então, contudo, ainda é necessária cautela.
Exteriorizar raiva não equivale necessariamente a exteriorizar uma ameaça.
Uma pessoa pode querer ofender sem querer intimidar.
Pode querer provocar.
Pode querer demonstrar indignação.
Pode empregar uma hipérbole.
Pode simplesmente perder momentaneamente o controle verbal.
Dependendo da situação, poderá haver outro ilícito. Em outras, o comportamento permanecerá no campo da grosseria ou da reprovação social.
Mas não necessariamente haverá o crime previsto no art. 147.
O Direito Penal não possui a função de civilizar todas as discussões humanas.
Sua intervenção somente se justifica quando estiverem presentes os elementos da conduta que o legislador decidiu criminalizar.
6. PRIMEIRO FILTRO: MAL INJUSTO E GRAVE
A própria redação do art. 147 estabelece importante mecanismo de contenção.
Não basta anunciar qualquer consequência desagradável.
O mal precisa ser injusto e grave.
Considere-se:
“Se você não pagar a dívida, vou processá-lo.”
Existe anúncio de consequência futura potencialmente desagradável.
Mas o exercício regular do direito de ação não representa, em princípio, mal injusto.
Compare-se:
“Se você cobrar essa dívida, vou quebrar suas pernas.”
A estrutura é completamente diferente.
Agora existe promessa de violência ilícita.
O exemplo demonstra que o Direito Penal não protege o indivíduo contra toda expectativa de consequência negativa.
Protege-o contra determinada forma de intimidação ilícita.
Além de injusto, o mal precisa ser grave.
Essa exigência funciona como manifestação da própria fragmentariedade penal: o sistema criminal não deve ser mobilizado diante de qualquer aborrecimento anunciado durante uma discussão.
7. SEGUNDO FILTRO: SERIEDADE E VEROSSIMILHANÇA
A literalidade da frase não encerra a análise.
No HC 697.581/GO, julgado em 7 de março de 2023, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça tratou diretamente dessa questão.
O caso possuía circunstâncias incomuns. A imputação envolvia a contratação de trabalhos espirituais que teriam por objetivo provocar a morte de autoridades.
Apesar da aparente gravidade do propósito, o STJ reconheceu a atipicidade da ameaça.
Ao examinar o art. 147, o Tribunal registrou que o mal prometido deve ser injusto e grave e, portanto, sério e verossímil, acrescentando que a ameaça deve apresentar potencialidade de concretização sob uma perspectiva objetiva.
O precedente demonstra algo importante:
a gravidade aparente de determinada manifestação não substitui a análise dos elementos do tipo penal.
A ameaça precisa possuir significado intimidatório juridicamente relevante dentro das circunstâncias em que ocorre.
8. A IDONEIDADE INTIMIDATIVA
Essa compreensão aparece também em outro importante precedente do STJ.
No HC 437.730/DF, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma, julgado em 21 de junho de 2018, DJe de 1º de agosto de 2018, o Tribunal reconheceu a natureza formal do delito.
Segundo o precedente, a consumação não exige demonstração de que o destinatário efetivamente acreditasse que o mal seria concretizado.
A jurisprudência trabalha com a idoneidade intimidativa da ação.
A distinção é importante.
Uma pessoa emocionalmente resistente não deve receber menor proteção penal simplesmente porque conseguiu manter a calma diante de ameaça séria.
Por outro lado, a percepção puramente subjetiva do destinatário também não deveria, isoladamente, transformar qualquer expressão em crime.
A pergunta juridicamente mais adequada passa a ser:
considerada dentro das circunstâncias concretas, aquela comunicação apresentava aptidão séria para funcionar como intimidação?
9. UMA FRASE NÃO EXISTE FORA DE SEU CONTEXTO
Considere-se a expressão:
“Você vai se arrepender disso.”
O que ela significa?
Isoladamente, praticamente nada pode ser afirmado com segurança.
Pode significar:
“você perderá esse processo”.
“você perceberá que tomou uma decisão equivocada”.
“vou revelar aquilo que você fez”.
Ou:
“vou praticar violência contra você”.
Agora imagine que a frase seja acompanhada da exibição de uma arma.
Ou pronunciada por alguém que anteriormente agrediu o destinatário.
Ou enviada juntamente com uma fotografia da residência da vítima.
Seu significado muda radicalmente.
Daí decorre uma premissa metodológica essencial:
o objeto da análise penal não deveria ser simplesmente a frase, mas o ato comunicacional contextualizado.
Essa premissa não favorece necessariamente acusação ou defesa.
O contexto pode retirar de determinada expressão sua aparente gravidade.
Mas pode igualmente fazer o contrário.
Uma frase aparentemente ambígua pode assumir conteúdo inequívoco de ameaça quando inserida em histórico de violência conhecido pelos envolvidos.
Contextualizar significa enxergar mais, não menos.
10. A IRA NÃO EXCLUI AUTOMATICAMENTE O CRIME
Uma das questões mais relevantes é o tratamento das palavras pronunciadas durante discussões acaloradas.
Existe uma percepção intuitiva bastante difundida:
“Ele falou de cabeça quente; portanto, não foi ameaça.”
Formulada de maneira absoluta, essa conclusão não corresponde à orientação jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça.
No HC 437.730/DF, o STJ já havia estabelecido que o fato de a conduta ocorrer durante entrevero ou contenda entre autor e vítima não possui o efeito de afastar sua tipicidade.
Posteriormente, no AgRg nos EDcl no HC 674.675/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 3 de agosto de 2021, DJe de 10 de agosto de 2021, a Corte voltou a enfrentar argumentos relacionados ao contexto de discussão.
A questão recebeu formulação ainda mais direta pela Corte Especial em julgamento de 10 de junho de 2024, em processo sob segredo de justiça, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, DJe de 26 de junho de 2024.
O destaque divulgado oficialmente pelo STJ foi categórico:
“O fato de ameaças serem proferidas em um contexto de cólera ou ira entre o autor e a vítima não afasta a tipicidade do delito.”
Essa orientação é juridicamente compreensível.
Uma pessoa pode estar profundamente irritada e, justamente por estar irritada, decidir intimidar outra.
Não existe incompatibilidade psicológica necessária entre raiva e vontade de ameaçar.
A cólera, portanto, não constitui salvo-conduto penal.
Mas daí não decorre que toda frase pronunciada durante a raiva seja crime.
11. A RAIVA NÃO ABSOLVE — MAS TAMBÉM NÃO CONDENA
Aqui se encontra a tese central deste artigo.
A jurisprudência que afirma que a ira não exclui automaticamente a ameaça não elimina nenhum dos requisitos do art. 147.
Continuam sendo necessários:
– mal injusto;
– gravidade;
– seriedade;
– idoneidade intimidativa;
– e elemento subjetivo compatível com a ameaça.
Por isso, é possível sintetizar a questão:
A raiva não absolve. Mas também não condena.
A primeira afirmação encontra respaldo direto na jurisprudência do STJ.
A segunda decorre da própria estrutura do tipo penal.
Se a ira fosse suficiente para transformar qualquer promessa de mal em crime, os demais elementos da figura típica perderiam relevância.
Não é isso que estabelece o art. 147.
Tampouco é isso que resulta da jurisprudência.
12. O ELEMENTO SUBJETIVO: A VONTADE DE INTIMIDAR
O HC 697.581/GO oferece importante contraponto à jurisprudência sobre ira e discussão.
Naquele julgamento, o STJ afirmou expressamente que o delito de ameaça somente pode ser cometido dolosamente e que deve estar configurada a intenção do agente de provocar medo na vítima.
No caso concreto, não havia demonstração de comportamento dirigido a causar temor aos supostos destinatários.
Ao contrário: segundo os elementos examinados pelo Tribunal, esperava-se que a contratação dos chamados trabalhos espirituais permanecesse em sigilo.
Daí surgiu uma conclusão particularmente importante: não havia vontade livre e consciente de intimidar os ofendidos.
O STJ advertiu que ignorar esse elemento poderia conduzir à responsabilidade penal objetiva.
Esse precedente permite estabelecer distinção fundamental:
desejar um mal e ameaçar alguém com esse mal são comportamentos juridicamente distintos.
Pode existir desejo de que algo ruim aconteça a alguém sem que exista comunicação intimidatória dirigida a essa pessoa.
O crime de ameaça exige algo diferente.
Exige comunicação dotada de significado intimidatório.
13. QUERER EXECUTAR O MAL E QUERER INTIMIDAR SÃO COISAS DIFERENTES
Outra distinção precisa ser estabelecida.
Imagine alguém que diga:
“Vou matar você.”
Internamente, entretanto, sabe que jamais pretende executar o homicídio.
Isso elimina necessariamente o crime de ameaça?
Não.
Se a finalidade da declaração foi fazer o destinatário acreditar na possibilidade daquele mal e, com isso, intimidá-lo, pode existir ameaça.
Portanto:
intenção de executar o mal anunciado não se confunde com intenção de intimidar mediante seu anúncio.
Para o art. 147, essa distinção é fundamental.
Por isso, a justificativa posterior:
“Eu jamais faria aquilo”
não resolve isoladamente a questão.
Mas a proposição inversa também precisa ser rejeitada:
“Ele pronunciou palavras graves; logo, necessariamente quis intimidar.”
O elemento subjetivo deve ser inferido racionalmente a partir das circunstâncias do caso.
14. O PARADOXO DA DISCUSSÃO ACALORADA
Chegamos, então, ao ponto mais difícil.
Durante uma discussão intensa, alguém pode pronunciar exatamente a mesma frase a partir de finalidades diferentes.
Na primeira hipótese:
“Quero que você acredite que realmente lhe causarei esse mal.”
Na segunda:
“Estou tão furioso que quero dizer a coisa mais violenta que consigo imaginar.”
Externamente, as palavras podem ser idênticas.
A finalidade comunicativa pode não ser.
Essa distinção não significa que a segunda conduta seja moralmente aceitável.
Significa apenas que reprovação moral e tipicidade penal não são categorias equivalentes.
E aqui surge a dificuldade probatória.
Como reconstruir posteriormente aquilo que estava sendo comunicado?
A resposta não pode depender exclusivamente da declaração posterior do acusado.
Bastaria negar qualquer intenção intimidatória.
Mas também não pode depender exclusivamente da interpretação subjetiva do destinatário.
É preciso examinar elementos externos capazes de permitir inferência racional sobre o significado da comunicação.
15. CRITÉRIOS PARA DISTINGUIR AMEAÇA, BRAVATA E DESABAFO
Não existe fórmula matemática capaz de resolver todos os casos.
Entretanto, legislação e jurisprudência permitem identificar critérios úteis.
15.1. Especificidade do mal
Existe diferença entre:
“Você vai ver.”
e:
“Amanhã, quando você sair do trabalho, vou esperar você no estacionamento.”
Quanto maior a concretude da promessa, maior pode ser sua força intimidatória.
Isso não significa que ameaça genérica jamais constitua crime.
Significa que o grau de determinação é elemento relevante.
15.2. Seriedade e verossimilhança
A promessa deve ser examinada segundo as circunstâncias concretas.
O HC 697.581/GO atribuiu expressamente relevância à seriedade, à verossimilhança e à potencialidade da ameaça.
15.3. Histórico entre os envolvidos
A mesma frase pronunciada por pessoas sem histórico de violência e por alguém que anteriormente agrediu o destinatário pode adquirir significado completamente diferente.
15.4. Comportamento imediatamente posterior
O suposto autor procurou a vítima?
Seguiu-a?
Reiterou as mensagens?
Tentou aproximar-se?
Enviou fotografias ou informações sobre sua rotina?
Ou encerrou imediatamente a comunicação e jamais retomou o assunto?
Nenhuma dessas circunstâncias decide isoladamente a tipicidade, mas todas podem auxiliar na interpretação.
15.5. Reiteração
Uma frase isolada durante explosão emocional apresenta contexto diferente de dezenas de mensagens ameaçadoras enviadas durante horas ou dias.
15.6. Meio empregado
Presença física, mensagem escrita, áudio, ligação, gesto, fotografia ou comunicação por terceiro podem produzir diferentes graus e formas de intimidação.
15.7. Reação da vítima
A reação concreta do destinatário constitui elemento probatório relevante.
Mas, segundo a orientação do STJ, a consumação não depende da demonstração de que a vítima tenha efetivamente acreditado na concretização do mal, bastando que a conduta revele idoneidade intimidativa.
15.8. Integralidade da comunicação
Na era digital, talvez seja um dos critérios mais importantes.
Sempre que possível, a mensagem deve ser examinada juntamente com aquilo que a antecedeu e sucedeu.
16. O CRIME É FORMAL: O MEDO EFETIVO NÃO É REQUISITO AUTÔNOMO
O HC 437.730/DF estabelece importante orientação sobre esse ponto.
O STJ considera o crime de ameaça formal e entende ser desnecessário demonstrar efetivo temor de concretização.
Isso não significa que a reação da vítima seja juridicamente irrelevante.
Ela pode funcionar como elemento probatório.
Mas não constitui requisito autônomo de consumação.
Essa solução evita dois extremos.
De um lado, impede que uma vítima particularmente resistente fique desprotegida porque não demonstrou medo.
De outro, a percepção subjetiva da vítima não dispensa a análise da idoneidade objetiva da comunicação.
O centro da questão permanece sendo a aptidão intimidativa da conduta considerada em seu contexto.
17. INTERVENÇÃO MÍNIMA E CONFLITOS COTIDIANOS
A discussão ultrapassa os limites específicos do art. 147.
O Direito Penal representa a modalidade mais intensa de intervenção estatal sobre o indivíduo.
Uma investigação criminal não é acontecimento trivial.
Muito menos uma ação penal.
Existem consequências econômicas, emocionais, familiares, profissionais e reputacionais decorrentes da persecução penal, mesmo quando posteriormente ocorre absolvição.
Daí a relevância da intervenção mínima e da fragmentariedade.
Nem toda imoralidade é crime.
Nem toda grosseria é crime.
Nem todo conflito precisa do Direito Penal.
E nem toda frase agressiva deve ser automaticamente convertida em ameaça criminal.
Isso não significa banalizar ameaças verdadeiras.
Ao contrário.
Preservar os limites do tipo penal também significa preservar a gravidade da verdadeira ameaça.
18. A SOCIEDADE DIGITAL E A “MEMÓRIA ARTIFICIAL DO CONFLITO”
Há uma transformação social que merece reflexão.
Durante grande parte da história, as discussões humanas foram predominantemente orais.
Duas pessoas discutiam.
Pronunciavam excessos.
Afastavam-se.
Horas depois, restavam lembranças imperfeitas e versões divergentes.
O smartphone alterou essa dinâmica.
Durante poucos minutos de conflito, alguém pode produzir dezenas de mensagens, áudios, ligações, fotografias e vídeos.
Tudo pode permanecer armazenado.
Criou-se aquilo que podemos chamar de:
memória artificial do conflito.
A emoção pode ser transitória.
O registro pode permanecer indefinidamente.
A pessoa que escreveu determinada mensagem pode estar completamente calma minutos depois.
A mensagem, entretanto, continuará exatamente tão agressiva quanto no instante em que foi enviada.
Quando apresentada meses depois em audiência, a emoção desapareceu.
A frase permaneceu.
19. A PERMANÊNCIA DA PROVA NÃO É A PERMANÊNCIA DA INTENÇÃO
Essa diferença merece atenção.
O registro digital congela palavras.
Não congela integralmente o estado psicológico, temporal e relacional no qual elas foram produzidas.
Isso evidentemente não significa que a emoção elimine responsabilidade.
Significa algo mais limitado:
a permanência material da mensagem não dispensa a reconstrução jurídica de seu contexto.
Talvez possamos formular assim:
A tecnologia preserva extraordinariamente a mensagem, mas não necessariamente preserva, com a mesma fidelidade, todo o contexto humano no qual ela foi produzida.
Daí a importância de recuperar, sempre que possível:
– o diálogo completo;
– os acontecimentos anteriores;
– a sequência temporal;
– as respostas do destinatário;
– o comportamento posterior;
– o relacionamento existente entre os envolvidos.
O processo penal não deve confundir permanência da prova com permanência da intenção.
20. O RECORTE DIGITAL DO CONFLITO
Existe outro problema contemporâneo.
Mensagens podem ser selecionadas.
Imagine-se uma discussão de cinquenta minutos.
Em determinado momento, alguém escreve:
“Eu vou acabar com você.”
Isoladamente, a frase possui aparência ameaçadora.
Suponha, entretanto, que as mensagens imediatamente anteriores fossem:
“Vou ajuizar a ação amanhã.”
“Tenho todos os documentos.”
“Você terá que explicar isso no processo.”
“Eu vou acabar com você juridicamente.”
O contexto altera significativamente a interpretação.
Agora imagine que a mensagem imediatamente anterior fosse:
“Sei onde seus filhos estudam.”
O mesmo fragmento passa a assumir significado completamente diferente.
Daí uma consequência probatória importante:
Capturas de tela isoladas podem demonstrar palavras, mas nem sempre demonstram adequadamente o ato comunicacional.
Preservar a integralidade da conversa pode ser relevante tanto para a acusação quanto para a defesa.
21. QUANDO A TECNOLOGIA PROLONGA O PRÓPRIO CONFLITO
A tecnologia não apenas registra discussões.
Também permite prolongá-las.
Na interação presencial existe um mecanismo natural de interrupção: alguém se afasta.
A distância física encerra ou ao menos suspende a comunicação.
Aplicativos de mensagens diminuíram essa barreira.
A pessoa sai do ambiente e continua discutindo.
Entra no carro e envia um áudio.
Chega em casa e recebe uma resposta.
Responde novamente.
Cada nova mensagem pode alimentar a seguinte.
A comunicação digital permite, assim, uma espécie de retroalimentação do conflito.
Aquilo que presencialmente talvez terminasse em poucos minutos pode continuar durante horas ou dias.
22. DA DISCUSSÃO PRIVADA AO PROCESSO CRIMINAL
A passagem do conflito privado para o sistema penal também se tornou extremamente rápida.
A sequência pode ser:
discussão → mensagem → captura de tela → boletim de ocorrência → investigação → denúncia → processo criminal.
A facilidade de acesso às autoridades é necessária.
Quem verdadeiramente sofre ameaça deve dispor de mecanismos rápidos de proteção.
Mas a rapidez do acesso não elimina os filtros jurídicos posteriores.
O boletim de ocorrência registra uma narrativa.
Não estabelece culpa.
A investigação deve reconstruir o fato.
A acusação deve possuir justa causa.
E eventual condenação exige prova suficiente dos elementos do delito.
Entre uma mensagem aparentemente ameaçadora e uma sentença condenatória devem existir filtros capazes de distinguir aparência, contexto e tipicidade.
23. O PROCESSO PENAL COMO POSSÍVEL EXTENSÃO DO CONFLITO
Existe ainda questão particularmente delicada.
Em conflitos familiares, empresariais, societários, condominiais, profissionais ou afetivos, a persecução criminal pode coexistir com outras disputas.
Isso não permite presumir falsidade da acusação.
Também não autoriza desacreditar previamente a vítima.
Significa apenas reconhecer uma premissa elementar:
quanto maior e mais complexo o conflito preexistente, maior a importância da reconstrução rigorosa do contexto.
Uma notícia de crime pode coexistir com divórcio, disputa de guarda, dissolução societária, cobrança, inventário ou conflito patrimonial.
Nessas situações, o processo penal deve verificar autonomamente se o comportamento efetivamente preenche os requisitos do tipo penal.
24. A PARTICULARIDADE DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
Uma ressalva é indispensável.
Ameaças inseridas em relações de violência doméstica não podem ser examinadas como se necessariamente fossem simples discussões entre pessoas em condições equivalentes.
Uma frase aparentemente isolada pode integrar histórico de agressões, controle, perseguição, humilhação ou intimidação.
Nesse cenário, examinar apenas a literalidade da última mensagem pode significar ignorar parte essencial do fenômeno.
Foi justamente em contexto de violência doméstica que a Corte Especial do STJ, no julgamento de 10 de junho de 2024, reafirmou que cólera ou ira não afastam a tipicidade da ameaça.
Essa conclusão não conflita com a tese desenvolvida aqui.
Ao contrário.
Contextualizar não significa diminuir a proteção da vítima.
Significa compreender integralmente o fato.
O contexto pode demonstrar que determinada frase era uma hipérbole.
Mas pode também revelar que uma expressão aparentemente ambígua carregava significado intimidatório inequívoco em razão de histórico anterior de violência.
25. O TRATAMENTO ESPECIAL DA AMEAÇA CONTRA A MULHER
A Lei nº 14.994/2024 modificou o art. 147.
Atualmente, quando o crime é cometido contra mulher por razões da condição do sexo feminino, nos termos do art. 121-A, § 1º, do Código Penal, a pena é aplicada em dobro.
Também existe importante consequência processual.
Como regra, o crime de ameaça depende de representação.
Na hipótese qualificada do § 1º, entretanto, a ação penal não depende dessa manifestação da vítima.
É importante observar que a simples circunstância de a vítima ser mulher não produz automaticamente a duplicação da pena.
É necessário que estejam presentes as razões da condição do sexo feminino previstas na legislação.
26. UMA ATUALIZAÇÃO IMPORTANTE DE 2026: O PRAZO DE REPRESENTAÇÃO NA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
Há uma alteração legislativa muito recente que merece registro.
A Lei nº 15.438, de 18 de junho de 2026, ampliou o prazo decadencial para exercício do direito de queixa ou de representação nos crimes praticados no âmbito de violência doméstica e familiar contra a mulher.
O art. 103 do Código Penal passou a prever, para essas situações, prazo de 12 meses, contado do conhecimento da autoria, ressalvada a hipótese legal relativa à ação privada subsidiária.
A alteração não transforma crimes de ação pública incondicionada em condicionados.
Sua importância para o art. 147 está nas hipóteses em que a ameaça continua dependendo de representação.
Trata-se de modificação particularmente recente e que demonstra a contínua evolução legislativa da matéria.
27. AMEAÇA, PERSEGUIÇÃO E VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA
O art. 147 não existe isoladamente no atual Código Penal.
O art. 147-A disciplina o crime de perseguição — stalking — e exige comportamento reiterado.
O art. 147-B tipifica a violência psicológica contra a mulher.
Desde 2025, o parágrafo único do art. 147-B prevê ainda aumento de metade quando o delito é cometido mediante inteligência artificial ou outro recurso tecnológico que altere imagem ou som da vítima.
Essas figuras revelam mudança importante na política criminal.
O sistema passou a considerar não apenas episódios pontuais, mas também determinados padrões de comportamento.
Uma mensagem isolada pode suscitar análise do art. 147.
Dezenas de mensagens, perseguição física, monitoramento e invasão persistente da privacidade podem configurar realidade jurídica distinta.
28. O NOVO ART. 147-C DO CÓDIGO PENAL
Em março de 2026, outra alteração legislativa ampliou o quadro normativo.
A Lei nº 15.358/2026, que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, acrescentou ao Código Penal o art. 147-C.
O dispositivo estabelece figura específica para a ameaça praticada no contexto da atuação ou para a consecução das condutas previstas no marco legal de combate ao crime organizado.
A pena é significativamente superior à ameaça comum:
reclusão de um a três anos.
Essa figura possui contexto específico e não modifica os elementos da ameaça comum examinada neste artigo.
Sua referência, entretanto, é necessária para que o panorama legislativo esteja atualizado até 2026.
29. O QUE O HC 697.581/GO ENSINA SOBRE OS LIMITES DA INCRIMINAÇÃO
Vale retornar ao precedente porque ele sintetiza importante limite dogmático.
No HC 697.581/GO, o STJ estava diante de comportamento aparentemente perturbador: contratação de trabalho espiritual destinado à morte de terceiros.
Mesmo assim, reconheceu a ausência do crime de ameaça.
A gravidade moral do comportamento não substituiu os requisitos do tipo penal.
Faltava demonstração de que a conduta tivesse sido conscientemente dirigida à intimidação dos destinatários e, adicionalmente, o Tribunal examinou a seriedade, a verossimilhança e a potencialidade da ameaça.
A lição ultrapassa as peculiaridades daquele caso.
Não basta perguntar:
A frase é agressiva?
Menciona violência?
Demonstra raiva?
A pergunta penalmente relevante é mais rigorosa:
Houve comunicação séria e idônea de mal injusto e grave, conscientemente dirigida à intimidação de outra pessoa?
30. UMA PROPOSTA DE TESTE PARA A AMEAÇA PENALMENTE RELEVANTE
A partir do texto legal e da jurisprudência examinada, pode-se propor um teste estruturado em cinco perguntas.
1. Houve anúncio ou promessa de um mal?
Sem comunicação de mal não existe a estrutura fundamental da ameaça.
2. O mal anunciado é injusto e grave?
Consequência legítima ou insignificante não satisfaz o art. 147.
3. A manifestação era séria e verossímil dentro daquele contexto?
Aqui devem ser examinados relacionamento, histórico, linguagem, meio utilizado e circunstâncias.
4. A conduta possuía idoneidade intimidativa?
Não basta interpretar abstratamente as palavras.
É necessário perguntar se, no contexto concreto, aquela comunicação possuía aptidão para funcionar como intimidação.
5. Existem elementos seguros para inferir vontade consciente de intimidar?
Esse último exame é fundamental para evitar responsabilidade penal objetiva.
A raiva pode estar presente durante todas essas etapas.
Mas:
a raiva não substitui nenhuma delas.
31. AS DUAS SIMPLIFICAÇÕES QUE DEVEM SER EVITADAS
Existem dois extremos igualmente problemáticos.
O primeiro:
“Foi dito durante uma discussão; portanto, não é crime.”
Está errado.
Uma discussão pode conter ameaça perfeitamente séria.
O segundo:
“Ele disse que faria mal; portanto, é crime.”
Também é insuficiente.
Entre a frase e o crime existem requisitos objetivos e subjetivos que precisam ser demonstrados.
O Direito Penal precisa resistir às duas simplificações.
32. UMA LEITURA HUMANA, MAS JURIDICAMENTE RIGOROSA
Talvez este seja o maior desafio interpretativo do crime de ameaça.
O Direito não pode ignorar que seres humanos falam de maneira imperfeita.
Exageram.
Usam metáforas.
Provocam.
Desabafam.
Perdem o controle.
Mas também intimidam.
Perseguem.
Controlam.
E ameaçam seriamente.
A função do Direito Penal não é negar essa complexidade.
É construir critérios seguros para distingui-la.
A solução não está em considerar atípica toda ameaça pronunciada sob emoção.
Também não está em criminalizar automaticamente toda linguagem violenta.
Está na reconstrução rigorosa do significado, da seriedade, da idoneidade e da finalidade da comunicação dentro de seu contexto.
33. CONCLUSÃO — ENTRE A PALAVRA E O CRIME
O crime de ameaça talvez seja um dos melhores exemplos de como uma única frase pode possuir enorme significado jurídico e, simultaneamente, de como uma única frase pode ser insuficiente para compreender um fato.
O art. 147 protege bem jurídico relevante: a liberdade individual diante da intimidação provocada pela promessa de mal injusto e grave.
Essa proteção é indispensável.
Especialmente quando a ameaça constitui instrumento de controle, perseguição ou violência continuada.
Mas justamente porque estamos diante do Direito Penal, a proteção não autoriza abandonar os elementos do tipo.
A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça fornece duas premissas que precisam ser interpretadas conjuntamente.
A primeira:
O fato de uma ameaça ser pronunciada em momento de ira, cólera ou discussão não exclui, por si só, sua tipicidade.
A segunda:
A ameaça precisa ser séria e idônea e pressupõe conduta dolosamente dirigida à intimidação.
Não existe contradição entre essas afirmações.
Existe o espaço dentro do qual deve ocorrer a análise jurídica.
A raiva não absolve.
Mas também não condena.
A palavra agressiva não é automaticamente ameaça.
Mas a palavra pronunciada durante uma discussão também não deixa automaticamente de sê-lo.
É necessário compreender o contexto.
Essa exigência tornou-se ainda mais importante na sociedade digital.
A tecnologia criou memória duradoura para emoções que podem ser transitórias.
Uma mensagem escrita durante segundos de exaltação pode sobreviver durante anos ao estado emocional que a produziu.
O desafio do processo penal contemporâneo é não confundir a permanência da prova com a permanência da intenção.
Uma captura de tela congela palavras.
Não congela integralmente o contexto psicológico, temporal e relacional no qual elas foram produzidas.
Por isso, diante de uma imputação pelo crime de ameaça, a primeira pergunta não deveria ser simplesmente:
“O que foi dito?”
Deveria ser:
“O que, naquele contexto, estava sendo comunicado?”
Depois:
“Havia anúncio sério de mal injusto e grave?”
Em seguida:
“A comunicação possuía idoneidade intimidativa?”
E, finalmente:
“Existem elementos seguros para concluir que ela foi conscientemente dirigida à intimidação?”
Somente quando essas perguntas encontram respostas afirmativas suficientemente demonstradas é que a intervenção penal alcança sua verdadeira legitimidade.
Porque proteger alguém contra uma ameaça real é função essencial do Direito.
Mas preservar a diferença entre raiva, conflito humano e crime também é.
REFERÊNCIAS LEGISLATIVAS E JURISPRUDENCIAIS
BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal, especialmente arts. 147, 147-A, 147-B e 147-C.
BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha.
BRASIL. Lei nº 14.132, de 31 de março de 2021. Introdução do crime de perseguição.
BRASIL. Lei nº 14.188, de 28 de julho de 2021. Introdução do crime de violência psicológica contra a mulher.
BRASIL. Lei nº 14.994, de 9 de outubro de 2024. Alterações no tratamento penal da violência contra a mulher e do crime de ameaça.
BRASIL. Lei nº 15.358, de 24 de março de 2026. Marco Legal do Combate ao Crime Organizado. Inclusão do art. 147-C do Código Penal.
BRASIL. Lei nº 15.438, de 18 de junho de 2026. Ampliação do prazo decadencial do direito de queixa ou representação nos crimes praticados no âmbito de violência doméstica e familiar contra a mulher.
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. HC 437.730/DF. Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura. Sexta Turma. Julgado em 21 jun. 2018. DJe 1º ago. 2018.
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. AgRg nos EDcl no HC 674.675/SP. Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca. Quinta Turma. Julgado em 3 ago. 2021. DJe 10 ago. 2021.
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. HC 697.581/GO. Rel. Min. Laurita Vaz. Sexta Turma. Julgado em 7 mar. 2023. DJe 15 mar. 2023. Informativo de Jurisprudência nº 771.
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Processo em segredo de justiça. Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira. Corte Especial. Julgado em 10 jun. 2024. DJe 26 jun. 2024. Informativo de Jurisprudência, Edição Extraordinária nº 21.

ESTADO DE NECESSIDADE E ESTADO DE PERIGO
DIFERENCIAÇÃO HISTÓRICA, DOGMÁTICA E CONSEQUÊNCIAS SISTÊMICAS
por Jaison Vieira
04/01/2026
CAPÍTULO I
INTRODUÇÃO GERAL
Situações de perigo grave e iminente desafiam a aplicação ordinária das normas jurídicas. O Direito, concebido para regular a normalidade da vida social, encontra seus limites quando o cumprimento estrito da norma implica o sacrifício intolerável de bens fundamentais, como a vida, a integridade física ou a própria subsistência.
O ordenamento jurídico brasileiro responde a essas situações por meio de institutos distintos, conforme o ramo do Direito envolvido. No Direito Penal, o estado de necessidade atua como causa de exclusão da ilicitude. No Direito Civil, o estado de perigo manifesta-se como vício da vontade, apto a invalidar ou revisar negócios jurídicos celebrados sob exploração consciente da vulnerabilidade.
Embora partam de um mesmo fato social — o perigo extremo —, tais institutos possuem fundamentos, funções e consequências profundamente diversos. O presente trabalho tem por objetivo examinar essa diferenciação a partir de sua construção histórica, estrutura dogmática, confronto doutrinário e aplicação jurisprudencial, garantindo coerência sistemática e utilidade prática.
CAPÍTULO II
A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA NECESSIDADE E DO PERIGO
2.1 A necessidade como problema jurídico permanente
Desde as origens do Direito, a necessidade extrema representa um desafio estrutural à normatividade. A exigência de cumprimento da lei, quando implica sacrifício intolerável de bens essenciais, coloca em tensão a própria legitimidade do sistema jurídico.
A história revela que esse problema foi enfrentado por caminhos distintos. No campo penal, a necessidade evoluiu como fundamento de justificação da conduta. No campo civil, o perigo extremo passou a ser reconhecido como fator de deformação da vontade, exigindo correção das relações privadas.
2.2 O Direito Romano e a máxima necessitas non habet legem
No Direito Romano, embora inexistisse uma teoria dogmática sistematizada, consolidou-se a máxima necessitas non habet legem, segundo a qual a necessidade extrema afastava a exigibilidade concreta da norma¹. Não se tratava da negação da lei, mas do reconhecimento de sua inaplicabilidade diante da impossibilidade fática de cumprimento.
A racionalidade romana era eminentemente pragmática: a sanção só se justificava quando útil à ordem social. Punir quem age para preservar a própria sobrevivência seria disfuncional e incompatível com a finalidade do Direito.
2.3 A Idade Média e a legitimação moral da necessidade
Na Idade Média, sob a influência do Direito Canônico e da filosofia escolástica, a necessidade extrema passa a receber fundamentação ética explícita. Para Tomás de Aquino, em situações de perigo vital, os bens deixam de ser privados e retornam à sua destinação comum, pois a preservação da vida prevalece sobre a propriedade².
Consolida-se, assim, a distinção entre o ato formalmente ilícito e o ato materialmente justo, antecipando a moderna noção de justificação jurídica.
2.4 O Iluminismo e a incorporação penal da necessidade
Com o Iluminismo e a formação do Direito Penal moderno, a necessidade deixa de ser mera tolerância moral e passa a ser normativamente incorporada. A pena passa a ser concebida como instrumento racional de prevenção e reprovação, incompatível com situações em que inexiste liberdade real de escolha.
Cesare Beccaria sustenta que a sanção perde sua legitimidade quando aplicada a quem age sob coação da realidade³. Esse pensamento culmina na positivação do estado de necessidade como causa de exclusão da ilicitude nos códigos penais modernos.
2.5 A gênese do estado de perigo no Direito Civil
Enquanto o Direito Penal evoluía nesse sentido, o Direito Civil clássico permaneceu vinculado ao voluntarismo contratual, presumindo a liberdade absoluta da vontade. Essa concepção revelou-se insuficiente diante das desigualdades sociais da modernidade.
O estado de perigo surge como reação a esse modelo, voltado a corrigir relações jurídicas marcadas pela exploração da urgência extrema.
CAPÍTULO III
O ESTADO DE NECESSIDADE NO DIREITO PENAL
O estado de necessidade, previsto no art. 24 do Código Penal, configura causa legal de exclusão da ilicitude, fundada na preservação de bem jurídico superior diante de perigo atual, inevitável e não provocado.
A conduta permanece típica, mas torna-se juridicamente permitida, pois o ordenamento reconhece a legitimidade da escolha trágica realizada em situação-limite, desde que observados os critérios de proporcionalidade e inevitabilidade.
Trata-se de técnica de contenção do poder punitivo estatal, fundada na inexigibilidade racional de comportamento diverso.
CAPÍTULO IV
O ESTADO DE PERIGO NO DIREITO CIVIL
O estado de perigo, disciplinado no art. 156 do Código Civil, constitui vício da vontade caracterizado pela assunção de obrigação excessivamente onerosa sob urgência grave, conhecida e explorada pela outra parte.
O instituto não legitima a obrigação assumida. Ao contrário, revela sua fragilidade estrutural, autorizando a invalidação ou revisão do negócio jurídico, em consonância com a boa-fé objetiva e a função social do contrato.
CAPÍTULO V
AUTONOMIA FUNCIONAL ENTRE AS ESFERAS PENAL E CIVIL
O art. 935 do Código Civil consagra a autonomia funcional entre as esferas penal e civil. A licitude penal da conduta não afasta, automaticamente, eventual responsabilidade civil, assim como a invalidade civil do negócio jurídico não implica, por si só, relevância penal. Essa independência relativa assegura coerência ao sistema jurídico e impede soluções simplificadoras.
No campo penal, o foco recai sobre a ilicitude da conduta e a legitimidade do exercício do poder punitivo estatal. No campo civil, a atenção dirige-se à reparação de danos, à validade das relações jurídicas e à proteção do equilíbrio contratual. Assim, a exclusão da ilicitude penal pelo estado de necessidade não afasta, automaticamente, eventual responsabilidade civil, do mesmo modo que a invalidação de um negócio jurídico por estado de perigo não implica, por si só, relevância penal.
Essa lógica encontra fundamento expresso no artigo 935 do Código Civil, segundo o qual a responsabilidade civil independe da criminal, ressalvadas as hipóteses de inexistência do fato ou negativa de autoria. Trata-se de regra estruturante, indispensável para a correta compreensão dos efeitos cruzados dos institutos analisados nesta obra.
CAPÍTULO VI
O ESTADO DE NECESSIDADE E A RESPONSABILIDADE CIVIL
Embora o estado de necessidade exclua a ilicitude penal, ele não neutraliza automaticamente os efeitos civis da conduta. O Direito Civil parte de pressupostos distintos, especialmente no que se refere à reparação de danos e à recomposição do patrimônio lesado.
Em determinadas hipóteses, o sacrifício de um bem alheio para a preservação de um bem jurídico superior pode ser penalmente legítimo, mas ainda assim gerar dever de indenizar, especialmente quando o prejuízo recai sobre terceiro inocente. A análise civil desloca-se da legitimidade da conduta para a distribuição equitativa dos prejuízos, à luz dos princípios da responsabilidade civil.
Essa distinção impede leituras simplificadoras segundo as quais a licitude penal afastaria, por si só, qualquer consequência indenizatória. O estado de necessidade protege o agente contra a sanção penal, mas não o exonera automaticamente de reparar o dano causado, quando presentes os pressupostos civis.
CAPÍTULO VII
O ESTADO DE PERIGO E A TUTELA DA BOA-FÉ OBJETIVA
No Direito Civil, o estado de perigo insere-se no sistema de tutela da boa-fé objetiva, funcionando como instrumento de repressão ao abuso e de correção das relações jurídicas marcadas por assimetria extrema.
O núcleo do instituto não está apenas na urgência vivenciada por quem assume a obrigação, mas no comportamento da outra parte, que, ciente da situação de perigo, dela se aproveita para impor prestação excessivamente onerosa. A censura jurídica recai sobre a violação dos deveres de lealdade, cooperação e correção, que informam todo o sistema contratual contemporâneo.
Nesse contexto, o estado de perigo atua como mecanismo de proteção da confiança e do equilíbrio contratual, autorizando a invalidação ou revisão do negócio jurídico sempre que demonstrada a exploração consciente da vulnerabilidade alheia.
CAPÍTULO VIII
DISTINÇÃO ENTRE ESTADO DE PERIGO, LESÃO E COAÇÃO
A correta aplicação do estado de perigo exige sua distinção em relação a outros defeitos do negócio jurídico, especialmente a lesão e a coação.
A lesão caracteriza-se pela desproporção entre as prestações, decorrente de inexperiência ou necessidade econômica, independentemente de perigo iminente. Já a coação pressupõe ameaça injusta, dirigida à pessoa ou a seus bens, restringindo diretamente a liberdade de manifestação da vontade.
O estado de perigo, por sua vez, distingue-se por três elementos centrais:
(i) situação de perigo grave e atual;
(ii) assunção de obrigação excessivamente onerosa;
(iii) conhecimento dessa situação pela outra parte.
A distinção entre esses institutos não é meramente conceitual, mas decisiva para a definição do regime jurídico aplicável, do prazo decadencial e das consequências práticas da invalidação do negócio.
CAPÍTULO IX
ERROS RECORRENTES NA PRÁTICA FORENSE
A experiência forense revela erros recorrentes na invocação dos institutos aqui analisados. Um dos mais comuns consiste em tentar justificar relações contratuais abusivas com base em estado de necessidade, instituto próprio do Direito Penal.
Outro equívoco frequente é presumir que a licitude penal da conduta afasta automaticamente qualquer responsabilidade civil, ou que a invalidade civil do negócio implica, necessariamente, ilicitude penal.
Essas confusões decorrem da desconsideração da autonomia funcional entre os sistemas e comprometem a adequada formulação da estratégia jurídica. A correta identificação do instituto aplicável é condição indispensável para a tutela eficaz dos direitos em jogo.
CAPÍTULO X
ESTADO DE NECESSIDADE E ESTADO DE PERIGO: CONFRONTO DOUTRINÁRIO E JURISPRUDÊNCIA
10.1 Hans Welzel e a justificação pela estrutura do fato
Para Hans Welzel, o estado de necessidade configura causa de exclusão da ilicitude fundada na ponderação objetiva entre bens jurídicos. A licitude decorre da hierarquia material entre os bens em conflito, legitimando o sacrifício do bem menor em favor do bem superior⁴.
10.2 Claus Roxin e a leitura funcional-normativa
Claus Roxin desloca o eixo da análise para a função do Direito Penal em um Estado Democrático de Direito. Para ele, a justificação repousa na inexigibilidade racional de conduta diversa e na limitação do poder punitivo estatal, que não pode exigir sacrifícios heroicos incompatíveis com a dignidade humana⁵.
10.3 Jurisprudência penal consolidada
O Superior Tribunal de Justiça reconhece que o estado de necessidade pode afastar a ilicitude penal, especialmente em hipóteses de preservação da subsistência mínima. Nos casos de furto famélico, admite-se a exclusão da tipicidade material ou da ilicitude quando comprovados o perigo atual e a inevitabilidade da conduta⁶.
10.4 Karl Larenz e a ruptura da base do negócio jurídico
Para Karl Larenz, o estado de perigo decorre da ruptura da base objetiva do negócio jurídico, tornando o contrato injusto por perder sua função econômica e social⁷.
10.5 Claus-Wilhelm Canaris e a boa-fé objetiva
Claus-Wilhelm Canaris insere o estado de perigo no sistema da boa-fé objetiva, enfatizando que o núcleo do instituto reside no comportamento abusivo de quem explora conscientemente a urgência alheia, violando deveres de lealdade e cooperação⁸.
10.6 Jurisprudência civil consolidada
O Superior Tribunal de Justiça admite a anulação ou revisão de negócios jurídicos celebrados sob estado de perigo, especialmente quando demonstrado o aproveitamento consciente da situação de urgência, em afronta à boa-fé objetiva⁹.
CAPÍTULO XI
CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS E CASOS COMPLEXOS
Um mesmo fato pode gerar licitude penal e, simultaneamente, efeitos civis relevantes. A correta distinção entre estado de necessidade e estado de perigo é decisiva para a solução de casos híbridos, evitando confusão entre justificação penal e correção civil.
CAPÍTULO XII
CONCLUSÃO GERAL
O estado de necessidade e o estado de perigo não são variações de um mesmo instituto, mas respostas jurídicas distintas a problemas normativamente diversos. O primeiro limita a violência estatal; o segundo reprime a violência privada.
A compreensão dessa diferenciação é condição indispensável para a aplicação justa, racional e coerente do Direito.
REFERÊNCIAS
JUSTINIANO. Digesto. In: MOMMSEN, Theodor; KRUEGER, Paul (eds.). Corpus Iuris Civilis. Berlin: Weidmann, 1872.
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. II–II, q. 66, a. 7. São Paulo: Loyola, 2005.
BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. São Paulo: Martin Claret, 2003.
WELZEL, Hans. Derecho penal alemán. 11. ed. Buenos Aires: Depalma, 1976.
ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Madrid: Civitas, 1997.
LARENZ, Karl. Base do negócio jurídico e cumprimento do contrato. Coimbra: Almedina, 1997.
CANARIS, Claus-Wilhelm. Pensamento sistemático e conceito de sistema no Direito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. HC 84.412/SP. Rel. Min. Gilson Dipp. 5ª Turma. Julg. 19 fev. 2004.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1.061.530/RS. Rel. Min. Nancy Andrighi. 3ª Turma. Julg. 22 out. 2008.
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Prezados clientes e amigos,
Ao final de mais um ano, o Jaison Vieira Sociedade Individual de Advocacia agradece, com sincera consideração, a confiança depositada em nosso trabalho e a parceria construída ao longo desse período.
Desejamos a todos um Natal repleto de paz, harmonia e momentos especiais, e que o Ano Novo traga saúde, realizações e novas oportunidades.
Seguiremos empenhados em oferecer um atendimento ético, responsável e comprometido com a excelência.
Boas Festas e um próspero Ano Novo!
Atenciosamente,
Jaison Vieira
Jaison Vieira Sociedade Individual de Advocacia
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A VOZ QUE NÃO SE CALA
Sou realizado como advogado. Minha missão é clara: lutar pela preservação de direitos e pela consagração da justiça.
Em tempos de autoritarismo judiciário, o destemor do advogado se torna ainda mais essencial. A covardia de quem deveria defender significa deixar o cidadão desprotegido, abandonado à própria sorte.
Nesses tempos sombrios, o que mais se ouve nos discursos é “devido processo legal” e “democracia”. E isso ocorre justamente porque, quanto menos reais esses princípios se mostram na prática, mais eles ecoam como meras palavras nas mentes folclóricas de julgadores arbitrários.
A advocacia é mais que profissão — é compromisso, é resistência, é a voz que se levanta quando todos se calam. É a presença firme que garante que a lei não seja apenas um texto, mas um escudo real para o cidadão.
Nossa inspiração remonta a Santo Ivo (Saint Yves), padroeiro dos advogados, que dedicou sua vida à defesa dos pobres, órfãos e injustiçados, simbolizando o ideal de justiça que continua a nos guiar.
Neste Dia do Advogado, reafirmo minha dedicação inabalável a essa causa e meu compromisso com aqueles que buscam justiça, mesmo quando isso exige enfrentar forças maiores.
Jaison Vieira | Advogado
11/08/2025
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O MITO DO “ACHADO NÃO É ROUBADO”: LIMITES LEGAIS, MORAIS E SOCIAIS
Por Jaison Vieira | Advogado
10/05/2025
1. Introdução: o provérbio ‘achado não é roubado’ sob a crítica histórica, moral e jurídica
Historicamente, a relação entre propriedade e posse de bens perdidos sempre foi um tema sensível nos ordenamentos jurídicos. Desde o Direito Romano, distinguia-se a posse injusta daquele que encontrava coisa alheia e dela se apropriava como se dono fosse, sendo vedado tal comportamento pelo princípio do “furtum usus” e pela obrigação de restituição prevista no Corpus Juris Civilis, especialmente nas Institutas de Justiniano (Livro II, Título I). Já na filosofia moral, autores como John Locke defenderam que a propriedade legítima nasce do trabalho e da apropriação racional de bens, conforme sua obra ‘Segundo Tratado sobre o Governo Civil’ (1690), especialmente no capítulo V, onde sustenta que ‘o trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos são propriamente seus’. Essa teoria, no entanto, não se aplica ao simples encontro de algo perdido, que não resulta de qualquer esforço ou transformação material. O ditado “achado não é roubado”, nesse sentido, expressa uma tentativa popular de relativizar a propriedade formal, ainda que sem fundamento jurídico.
Sob a ótica teológica, especialmente na tradição cristã, a propriedade privada é considerada legítima quando exercida com responsabilidade e solidariedade, mas não há fundamento moral para a apropriação de bem alheio apenas porque foi encontrado. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, ao discutir a justiça comutativa, reafirma que o respeito ao alheio é pressuposto da ordem social.
Já sob o prisma sociológico, o ditado revela a tensão entre a norma jurídica e o costume popular. Em sociedades com menor grau de institucionalização da posse e da propriedade, prevalece a ideia de que “quem achou é dono”, o que pode refletir realidades de carência econômica ou informalidade. No entanto, essa lógica, se aplicada sem mediação jurídica, abre caminho para abusos, conflitos e desorganização social.
A frase revela também um traço cultural comum a muitas sociedades: a ideia de que o que foi perdido está, de algum modo, “disponível” para quem encontrar. Contudo, essa percepção conflita diretamente com os princípios jurídicos da boa-fé, da função social da propriedade e da vedação ao enriquecimento sem causa.
É comum ouvir nas ruas a máxima “achado não é roubado”, geralmente usada para justificar a permanência com um objeto perdido por outra pessoa. Essa expressão faz parte do folclore jurídico-popular brasileiro, e embora muitos acreditem que represente uma autorização informal para ficar com bens alheios encontrados, a realidade jurídica está longe disso.
No imaginário popular, a frase sugere que encontrar algo perdido é uma forma de sorte ou prêmio, e que o achador teria algum direito de posse. Mas o que diz a lei?
2. Roubo, furto e apropriação indébita: distinções fundamentais
Antes de adentrarmos a responsabilidade do “achador”, é fundamental distinguir três figuras típicas do Direito Penal:
- Roubo (art. 157 do CP)
- É a subtração de coisa alheia móvel, mediante grave ameaça ou violência à pessoa. Pressupõe o uso da força contra a vítima ou contra a sua resistência.
- Furto (art. 155 do CP)
- É a subtração de coisa alheia móvel, sem violência ou grave ameaça. É o chamado “crime às escondidas”, quando o agente se apossa da coisa sem que a vítima perceba.
- Apropriação indébita (art. 168 do CP)
- Aqui, o agente recebe licitamente a posse da coisa, mas se recusa a restituí-la, agindo como se fosse dono. É o que mais se aproxima da situação de quem encontra um objeto e decide ficar com ele, como se fosse seu.
Apesar disso, é importante esclarecer que o simples achado de um bem não se enquadra, de forma imediata, nas figuras clássicas do roubo, furto ou apropriação indébita, justamente porque faltam os elementos típicos exigidos para a configuração desses crimes.
No roubo, exige-se o uso de grave ameaça ou violência contra a pessoa, o que evidentemente não está presente no simples ato de encontrar um objeto perdido.
No furto, há a clandestinidade ou astúcia do agente em retirar o bem da esfera de vigilância do possuidor, elemento também ausente quando o bem é simplesmente encontrado.
Já na apropriação indébita, pressupõe-se que o bem tenha sido entregue voluntariamente pelo proprietário ou possuidor ao agente, o que não ocorre no caso do achado, pois o bem já havia sido perdido.
Assim, embora o achado não se encaixe nessas figuras penais mais conhecidas, isso não significa que o comportamento do achador está isento de reprovação jurídica. Pelo contrário, a legislação prevê resposta penal específica para essa conduta, como se verá a seguir.
3. O achado de coisa perdida: o que diz o Código Penal?
O art. 169, II, do Código Penal prevê expressamente a conduta:
“Apropriar-se alguém de coisa achada, deixando de restituí-la ao dono ou de entregá-la à autoridade competente, dentro do prazo de quinze dias.”
Pena: detenção de um mês a um ano, ou multa.
Portanto, a ideia de que “achado não é roubado” pode parecer inofensiva, mas a apropriação de bem perdido configura crime, ainda que de menor potencial ofensivo.
4. Consequências civis: o dever de restituir e o direito à recompensa
O Código Civil (arts. 1.233 e 1.234) impõe ao achador o dever de restituir a coisa perdida ou entregá-la à autoridade competente. O achador não se torna dono da coisa; ele se torna depositário legal do bem alheio, com obrigações definidas por lei.
Caso o bem não seja restituído, o verdadeiro proprietário pode propor ação de reivindicação, cumulada com indenização por perdas e danos, se houver prejuízo decorrente da não devolução.
Direito de Retenção pelo Achador
O Código Civil Brasileiro, em seu artigo 1.234, prevê que aquele que restituir a coisa achada tem direito a uma recompensa não inferior a 5% do valor do bem e à indenização pelas despesas realizadas com sua conservação e transporte.
Além disso, o artigo 1.219 do mesmo código estabelece que o possuidor de boa-fé tem direito à indenização pelas benfeitorias necessárias e úteis realizadas no bem, podendo exercer o direito de retenção até ser ressarcido.
Aplicação em Casos de Animais de Estimação
Em situações envolvendo animais de estimação, a jurisprudência tem reconhecido o direito de retenção ao achador que arcou com despesas de manutenção do animal. Embora os julgados variem conforme as circunstâncias concretas de cada caso, de modo que sua transcrição literal poderia desinformar ou limitar o alcance pedagógico do presente artigo, observa-se que há respaldo legal e doutrinário para que o possuidor de boa-fé retenha o bem até ser indenizado pelas benfeitorias necessárias, conforme o artigo 1.219 do Código Civil.
Optamos por não citar jurisprudência específica porque cada situação possui particularidades de fato e de prova que podem alterar substancialmente a solução jurídica. Assim, para fins didáticos, o tratamento em nível de generalidade melhor atende ao propósito de esclarecimento técnico do artigo.
Considerações sobre a retenção
A esse respeito, Aristóteles, na obra Ética a Nicômaco (Livro V), ao tratar da justiça comutativa, já advertia contra o desequilíbrio nas relações humanas, afirmando que “a injustiça consiste em atribuir a si mesmo mais do que é justo”. Segundo o filósofo, nas trocas entre indivíduos deve prevalecer uma equivalência que impeça o enriquecimento de uma parte em detrimento da outra. O agente que se apropria de bem perdido, sem esforço próprio ou contraprestação, rompe com esse equilíbrio ético. Embora Aristóteles não use os termos modernos, sua concepção de justiça repudia o enriquecimento sem causa como conduta moralmente injustificável e socialmente desordenadora.
Outro fundamento relevante é o princípio da vedação ao enriquecimento ilícito ou sem causa, consagrado no artigo 884 do Código Civil. Quando alguém se apossa de coisa alheia sem qualquer contraprestação ou esforço, e especialmente quando não houve despesa para sua conservação ou manutenção, a apropriação se mostra ainda mais incompatível com os valores do ordenamento jurídico. Mesmo no caso de bens móveis de valor simbólico ou animais de estimação, a manutenção da posse pelo achador, sem restituição, constitui forma de locupletamento à custa de outrem, o que é vedado tanto no plano patrimonial quanto moral. O retorno do bem ao legítimo proprietário, portanto, não é apenas um dever legal, mas medida essencial para impedir o enriquecimento indevido.
Portanto, o entendimento jurisprudencial atual reconhece o direito de retenção ao achador de coisa perdida, incluindo animais de estimação, até que seja ressarcido pelas despesas realizadas na conservação do bem. Esse direito visa evitar o enriquecimento sem causa do proprietário original e garantir a justiça nas relações de posse e propriedade.
5. Doutrina: o dever moral e jurídico do achador
“O agente que encontra objeto perdido e dele se apropria, deixando de restituí-lo ao dono ou à autoridade competente, pratica o crime do art. 169, II, do Código Penal. Sua conduta é reprovável, pois a lei impõe ao achador o dever de diligência e probidade.”
— Damásio de Jesus, Código Penal Anotado, 19ª ed., Saraiva, 2007, p. 586
“A posse injusta de coisa alheia, obtida por meio do achado, não confere ao agente qualquer espécie de direito real, sendo apenas tolerada temporariamente para os fins de devolução. Não o fazendo, pratica crime próprio, que não se confunde com o furto.”
— Celso Delmanto et al., Código Penal Comentado, 9ª ed., Saraiva, 2016, p. 445
“Na apropriação de coisa achada, a posse é adquirida sem violência ou clandestinidade, mas com consciência da perda alheia. O agente sabe que o bem não lhe pertence e mesmo assim decide por não restitui-lo. Tal comportamento configura infração penal, com previsão própria no artigo 169, II.”
— Guilherme de Souza Nucci, Código Penal Comentado, 18ª ed., Forense, 2018, p. 828
6. Considerações finais: o folclore que pode custar caro
A expressão “achado não é roubado” não encontra respaldo no ordenamento jurídico brasileiro. Pelo contrário, o achador que se apropria da coisa encontrada incorre em ilícito penal e civil.
No Brasil, a boa-fé e a proteção da propriedade são princípios que norteiam a ordem jurídica. O dever de restituir aquilo que não nos pertence é não apenas uma exigência legal, mas também um imperativo ético.
Portanto, quem acha um objeto perdido deve entregá-lo à autoridade competente ou devolver ao legítimo dono. Afinal, o “achado”, se não devolvido, pode virar crime — e, mesmo quando não virar, pode custar caro.
No mais, vale lembrar: quem detém a coisa achada pode até ser possuidor de fato, mas não se torna proprietário. A posse exercida contra a boa-fé do verdadeiro dono não gera direitos, tampouco legitimidade. Como bem resume o espírito da norma, o achado não presume propriedade — presume dever: o de restituir.
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Tiro nas Costas x Tiro pelas Costas: A Possibilidade de Legítima Defesa e Seus Limites no Direito Penal Brasileiro
por Jaison Vieira | Advogado
01/05/2025
Nota ao Leitor
Este artigo tem caráter doutrinário e reflexivo. Optamos por não trazer jurisprudência específica sobre o tema, pois cada decisão judicial é construída a partir de circunstâncias fáticas singulares que influenciam diretamente o reconhecimento — ou não — da legítima defesa.
A jurisprudência, nesse campo, varia conforme detalhes como distância, tempo, postura do agressor, estado emocional da vítima, entre outros. Por essa razão, os posicionamentos doutrinários — justamente por sua generalidade e abstração — melhor atendem à proposta deste trabalho, que não pretende esgotar o tema, mas oferecer uma contribuição crítica e técnica à reflexão sobre os limites da legítima defesa, especialmente nos casos de disparos pelas costas.
1. Introdução
A legítima defesa é um dos pilares do Direito Penal brasileiro, autorizando o cidadão a repelir, nos limites legais, uma agressão injusta, atual ou iminente. Contudo, seu campo de aplicação tem gerado debates cada vez mais complexos, sobretudo diante da crescente circulação de vídeos nas redes sociais envolvendo confrontos armados.
Tem-se visto com frequência imagens de roubos de motocicletas, em que, após o criminoso tomar a posse do veículo, empreende fuga. Nesse instante, a vítima — ou, por vezes, um terceiro — saca uma arma e efetua disparos, atingindo o infrator pelas costas, muitas vezes de forma letal. Surge, então, uma indagação crucial para a dogmática penal: se o criminoso, embora armado, já está de costas e em fuga, ainda se está diante de uma situação de legítima defesa, ou se tal conduta configura execução à margem da legalidade penal.
Este artigo pretende analisar tais situações a partir do confronto entre o conceito de “tiro nas costas” e “tiro pelas costas”, traçando distinções que podem ser determinantes para o reconhecimento — ou não — da excludente de ilicitude.
1.1. Breve Evolução Histórica da Legítima Defesa
A legítima defesa é um dos mais antigos institutos do Direito Penal, com raízes no próprio instinto humano de autopreservação. Historicamente, surgiu muito antes do Estado como detentor do monopólio da força, sendo aceita como reação natural e necessária diante de agressões injustas.
Na Roma Antiga, o princípio da legítima defesa já era conhecido pela máxima vim vi repellere licet (“é lícito repelir a força com a força”), que permitia ao cidadão defender-se contra qualquer ataque injusto, mesmo com a morte do agressor.
Durante a Idade Média, com a expansão do direito canônico, o uso da força passou a ser mais rigidamente controlado pela moral cristã. Ainda assim, o instituto da legítima defesa foi preservado, sendo tolerado quando não houvesse alternativa para proteger a vida ou a honra.
No Direito Penal Moderno, a legítima defesa foi sendo gradualmente positivada nos códigos legais, assumindo feição jurídica e limitando-se por critérios de proporcionalidade e necessidade. Na tradição continental europeia, especialmente a alemã e a italiana, consolidou-se a ideia de que a legítima defesa não é apenas um direito, mas também um dever moral de proteção social.
No Brasil, a legítima defesa sempre esteve presente nos Códigos Penais — desde o Código Criminal do Império (1830), passando pelo Código Penal de 1890, até o atual Código Penal de 1940, que a regula no art. 25, com redação clara e abrangente, permitindo a defesa de qualquer direito, desde que respeitados os requisitos legais.
2. Fundamentação Filosófica da Legítima Defesa
A legítima defesa, ao longo da história da filosofia, tem sido reconhecida como um direito natural de autopreservação. De Tomás de Aquino a John Locke, passando por Hobbes e Kant, consolidou-se a ideia de que a reação a uma agressão injusta é moralmente aceitável, desde que necessária e proporcional. Porém, todos — em especial Kant e os penalistas modernos — alertam para o risco de que esse direito seja desvirtuado em instrumento de vingança. A legítima defesa visa preservar a ordem, não subvertê-la.
Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, ao tratar da justiça corretiva, já distinguia entre ações voluntárias e involuntárias e indicava que a justiça depende do equilíbrio proporcional entre ação e reação.
Tomás de Aquino, por sua vez, oferece uma das formulações mais conhecidas e duradouras sobre a legítima defesa. Em sua Suma Teológica (II-II, q. 64, art. 7), ensina:
“Nada impede que um ato seja duplo quanto aos seus efeitos: um é o da intenção e o outro é além da intenção.
Por isso, atos de defesa própria podem ser lícitos mesmo quando implicam a morte do agressor, desde que o fim visado seja legítimo.”
Essa doutrina do duplo efeito permanece influente até hoje, especialmente nas discussões sobre os limites éticos e jurídicos do uso da força.
3. Tiro nas Costas x Tiro pelas Costas: Distinção Fática e Jurídica
Tiro nas costas: ocorre quando o disparo atinge a parte posterior do corpo. Pode ou não representar traição ou ausência de perigo — depende do contexto.
Tiro pelas costas: denota uma ação tipicamente surpresa, com agressão cessada, sem possibilidade de reação pela vítima. Normalmente indica ausência de legítima defesa.
A distinção entre os dois não é apenas semântica, mas jurídica: o ponto central é a existência (ou não) de agressão atual no momento do disparo.
4. A Atualidade da Agressão em Casos de Fuga
A legítima defesa exige agressão injusta e atual ou iminente. Com a fuga do agressor, especialmente após subtração de bem, discute-se se a agressão ainda persiste.
A doutrina conservadora entende que, havendo fuga, a agressão cessou, o que afastaria a legítima defesa.
A doutrina mais flexível, como Nucci e Greco, sustenta que a fuga pode não cessar o risco, especialmente se o criminoso ainda estiver armado ou representar perigo de retorno.
5. Fuga com o Bem como Continuação da Agressão Patrimonial
A agressão patrimonial, sobretudo em roubos com violência ou grave ameaça, não se encerra na subtração, mas sim quando o criminoso consolida a posse pacífica do bem.
Portanto, se a vítima reage durante a fuga, a agressão pode ainda ser considerada atual — o que mantém a legítima defesa como possível.
6. A Legítima Defesa do Patrimônio: Fundamento e Limites
O art. 25 do Código Penal permite a defesa de qualquer direito — incluindo o patrimônio. Contudo, o uso da força deve observar a proporcionalidade.
A vida não pode ser sacrificada para proteger um bem de pequeno valor, salvo se a ameaça à propriedade vier acompanhada de risco à integridade física da vítima.
A legítima defesa patrimonial é admitida, mas não pode ser pretexto para justiça privada ou retaliação armada.
6.1. O Risco da Legitimação da Vingança Privada Disfarçada de Defesa
Em tempos de vídeos virais e de exaltação de reações armadas, é preciso reforçar que a legítima defesa não se confunde com revanche.
Como ensina Jakobs, o fundamento da legítima defesa é a reafirmação da norma jurídica violada — não a punição do agressor. A vingança é antijurídica e desagregadora.
Portanto, mesmo nos casos em que há indignação social, o sistema penal não pode legitimar execuções extrajudiciais disfarçadas de defesa, sob pena de comprometer sua integridade normativa.
7. Excesso Punível na Legítima Defesa
A legítima defesa perde sua eficácia jurídica quando ultrapassa os limites da necessidade, da atualidade ou da moderação. Configura-se, então, o chamado excesso punível, que pode ser:
Culposo: erro escusável de avaliação.
Doloso: intenção de eliminar o agressor além da necessidade.
8. Quadro Comparativo
| Situação Fática | Legítima Defesa Admitida? | Justificativa |
|---|---|---|
| Assaltante armado foge com o bem, a poucos metros da vítima | Sim (possível) | Agressão patrimonial ainda atual; risco persiste; reação imediata. |
| Assaltante desarmado foge correndo, vítima persegue e atira pelas costas | Não | Agressão cessada; ausência de atualidade; reação configura vingança ou execução extralegal. |
| Assaltante empunha arma e se volta parcialmente durante a fuga | Sim (em geral) | Risco concreto de novo ataque; agressão não cessou por completo. |
| Ladrão em fuga sem ameaça visível, vítima atira de longe | Depende do caso | Pode haver excesso culposo se a reação for equivocada sob estado de pânico. |
| Vítima espera o criminoso fugir e atira pelas costas minutos depois | Não | Ausência de agressão atual; dolo de matar fora do contexto de defesa. |
9. Conclusão Crítica
A avaliação da existência de legítima defesa em casos de disparos nas costas exige análise rigorosa dos fatos. A posição do corpo do agressor não é decisiva isoladamente. O contexto — agressão persistente, fuga com arma, risco real — é o que fundamenta a reação.
A legítima defesa é possível, mas não automática. O Direito Penal não deve punir quem age legitimamente, mas também não pode permitir que a exceção vire regra e que o uso da força seja banalizado.
Nota Final
Este artigo não pretende esgotar o debate jurídico sobre legítima defesa em casos de disparos pelas costas. A ausência de jurisprudência específica decorre da convicção de que cada caso concreto é singular. A análise foi centrada na doutrina penal contemporânea, por melhor atender ao propósito reflexivo e formativo deste trabalho.
Artigo elaborado por Jaison Vieira | Advogado
contato@jvadvocacia.adv.br – j.vieira@jvadvocacia.adv.br
01/05/2025.
A Voz que Não se Cala
Por Jaison Vieira | Advogado
11/08/2025
Sou realizado como advogado. Minha missão é clara: lutar pela preservação de direitos e pela consagração da justiça.
Em tempos de autoritarismo judiciário, o destemor do advogado se torna ainda mais essencial. A covardia de quem deveria defender significa deixar o cidadão desprotegido, abandonado à própria sorte.
Nesses tempos sombrios, o que mais se ouve nos discursos é “devido processo legal” e “democracia”. E isso ocorre justamente porque, quanto menos reais esses princípios se mostram na prática, mais eles ecoam como meras palavras nas mentes folclóricas de julgadores arbitrários.
A advocacia é mais que profissão — é compromisso, é resistência, é a voz que se levanta quando todos se calam. É a presença firme que garante que a lei não seja apenas um texto, mas um escudo real para o cidadão.
Nossa inspiração remonta a Santo Ivo (Saint Yves), padroeiro dos advogados, que dedicou sua vida à defesa dos pobres, órfãos e injustiçados, simbolizando o ideal de justiça que continua a nos guiar.
Neste Dia do Advogado, reafirmo minha dedicação inabalável a essa causa e meu compromisso com aqueles que buscam justiça, mesmo quando isso exige enfrentar forças maiores.
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Feliz Páscoa!
Neste tempo de renovação, queremos agradecer pela confiança e parceria ao longo da nossa caminhada.
Que a Páscoa traga novos recomeços, esperança renovada e muitas alegrias à sua vida e à de todos que lhe são caros.
Desejamos a você e sua família uma Páscoa de paz, união e renovação verdadeira.
Com estima,
Jaison Vieira Sociedade de Advocacia
19/04/2025.
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FRAUDE SOCIETÁRIA
por Jaison Vieira | Advogado
atualizado em 15/04/2025
Estratégias para Identificar e Prevenir Práticas Irregulares em Sociedades Empresariais
A fraude societária representa uma das maiores ameaças à integridade das sociedades empresariais, afetando diretamente a transparência, a governança e a confiança entre sócios, investidores e o mercado. Além dos prejuízos financeiros, tais práticas comprometem a reputação institucional e podem gerar graves consequências legais para os envolvidos.
Este artigo trata dos principais aspectos relacionados à fraude societária: conceito, formas de ocorrência, impactos, sinais de alerta, mecanismos de prevenção e consequências legais.
1. Conceito de Fraude Societária
A fraude societária consiste na prática de atos enganosos, ocultos ou manipulativos realizados por sócios, administradores, funcionários ou terceiros, com o objetivo de obter vantagens ilícitas em prejuízo da sociedade ou de seus interessados. Pode ocorrer de forma interna ou externa, e compromete diretamente os princípios da boa-fé e da lealdade negocial.
2. Principais Modalidades de Fraude Societária
As fraudes societárias podem se manifestar por diversos meios, variando conforme os interesses envolvidos e a estrutura da empresa. Abaixo, listam-se algumas das formas mais recorrentes de práticas fraudulentas identificadas no ambiente societário:
Desvio de ativos: apropriação indevida de bens ou recursos da empresa.
Falsificação documental: criação ou alteração de documentos para encobrir atos ilícitos.
Manipulação contábil: ajustes irregulares nas demonstrações financeiras.
Uso de empresas de fachada: simulação de negócios com empresas interpostas.
Simulação contratual: formalização de operações fictícias ou sem causa real.
Uma forma bastante comum de fraude societária, especialmente em empresas de pequeno porte, é a criação de empresa por interposta pessoa com o intuito de concorrer contra a sociedade original. Frequentemente, essa nova empresa é registrada em nome de familiares ou pessoas próximas ao sócio infiel, o que dificulta a identificação do vínculo. Essa prática caracteriza a chamada infidelidade societária no âmbito civil e configura concorrência desleal no aspecto penal, especialmente quando envolve o desvio de clientela, conforme previsto no artigo 195 da Lei nº 9.279/96 (Lei da Propriedade Industrial).
Esses exemplos não esgotam as formas de fraude societária, mas representam práticas recorrentes que comprometem a integridade da empresa. Muitas vezes, essas condutas são combinadas ou disfarçadas por estratégias mais complexas, o que reforça a importância de mecanismos eficazes de controle, auditoria e investigação.
3. Motivações e Impactos da Fraude Societária
As motivações para a prática de fraudes societárias são diversas. Em muitos casos, observa-se uma estrutura societária composta por dois sócios com perfis distintos: um com maior aptidão para a área administrativa e financeira, e outro voltado às atividades comerciais. Inicialmente, essa divisão de funções parece adequada e equilibrada. No entanto, com o passar do tempo, pode surgir a percepção de desequilíbrio, com um dos sócios alimentando o sentimento de que “a empresa sou eu”. Esse sentimento mina a relação de amizade e, posteriormente, compromete a convivência profissional, tornando o cotidiano uma sucessão de conflitos e desconfianças.
É nesse ambiente deteriorado que, frequentemente, o chamado “plano B” é colocado em prática: o sócio que se sente insatisfeito ou em posição de supremacia passa a estruturar uma operação paralela, visando replicar a mesma experiência empresarial, agora em nome próprio ou por meio de terceiros. O resultado é uma corrosão progressiva da empresa original, que, ao final, pode se ver esvaziada de clientela, contratos e ativos.
Os impactos incluem:
Financeiros: prejuízos, dilapidação patrimonial e até falência.
Reputacionais: perda de credibilidade junto ao mercado.
Legais: responsabilização civil e penal.
Operacionais: paralisação de atividades e instabilidade interna.
Comportamentais: mudanças abruptas na conduta de sócios, conflitos, omissão de informações e decisões unilaterais podem indicar práticas fraudulentas.
4. Sinais de Alerta
A identificação de fraudes societárias pode ser facilitada pela observação de sinais comportamentais e operacionais que indicam quebra de confiança ou práticas abusivas dentro da sociedade. Embora nem todo indício represente uma fraude consumada, a persistência ou a combinação de fatores deve acionar mecanismos de apuração.
Inconsistências contábeis: omissões, erros frequentes e resistência a auditorias.
Transferências patrimoniais sem justificativa: movimentações atípicas ou não autorizadas.
Falta de transparência na administração: decisões unilaterais e sem registros.
Estrutura societária artificial: criação de empresas ou parcerias sem justificativa econômica.
Mudança de comportamento de sócios: um dos sinais mais reveladores é a alteração repentina na postura de um dos sócios. Isso pode incluir afastamento de reuniões, centralização de decisões, ocultação de informações relevantes, interrupção de comunicações usuais ou até hostilidade injustificada. Em muitos casos, essa mudança de comportamento antecede ou acompanha práticas de infidelidade societária, como a criação de negócios paralelos ou o aliciamento de clientes e funcionários para empresas concorrentes.
Retirada atípica ou forçada de lucros: em regra, sociedades empresárias mantêm uma política de reserva de lucros, compatível com o tipo de negócio, o grau de prudência dos sócios e os objetivos de investimento e reinvestimento da empresa. Ao final de cada exercício, costuma-se distribuir uma parte do lucro entre os sócios, mantendo-se um montante na empresa para assegurar sua continuidade e crescimento. No entanto, um sinal relevante de alerta é quando um dos sócios passa a pressionar pela distribuição integral dos lucros, ou por percentuais superiores aos praticados, de forma recorrente. Esse comportamento pode refletir uma estratégia de saída silenciosa da sociedade ou de capitalização para investimento em atividade paralela. Ao reduzir deliberadamente as reservas, o sócio que já tenha ativado um “plano B” pode estar buscando esvaziar financeiramente a empresa antes de sua retirada, dificultando futuras discussões patrimoniais ou negociações de sua saída.
5. Prevenção e Combate à Fraude Societária
Para prevenção à fraude, os itens apresentados a seguir são fundamentais. A soma de dois ou mais desses mecanismos pode aumentar significativamente a segurança da gestão societária. Contudo, quando se trata da relação direta entre sócios — especialmente em pequenas sociedades em que todos estão à frente da operação — o “olho no olho” continua sendo insubstituível. Sinais de insatisfação ou de desconfiança podem ser, como se diz, a fumaça que anuncia o fogo, ou a trovoada que precede a tempestade. Nunca é demais lembrar que a noite escurece aos poucos: os conflitos raramente surgem de forma abrupta, mas sim por processos progressivos que podem ser detectados a tempo se houver sensibilidade e atenção.
Governança corporativa estruturada: regras claras, divisão de competências e registro formal de decisões.
Auditorias independentes: verificação técnica isenta e periódica.
Controles internos eficazes: rastreabilidade, segregação de funções e controles eletrônicos.
Cultura ética organizacional: canais de denúncia, treinamentos e incentivo à transparência.
Due diligence: análise prévia de sócios e parceiros.
Uso de tecnologia: automação de processos e análise de dados para detecção de desvios.
6. Consequências Legais
6.1. Responsabilidade Civil
O sócio ou administrador que causar prejuízo à sociedade responde com seu patrimônio pessoal, inclusive por danos emergentes e lucros cessantes. Essa responsabilidade encontra respaldo no artigo 1.016 do Código Civil, que dispõe: “os sócios respondem solidariamente perante a sociedade pelos prejuízos que causarem, violando a lei ou o contrato social”. Além disso, o artigo 1.011, §1º, estabelece que o administrador deve empregar, no exercício de suas funções, o cuidado e a diligência que todo homem ativo e probo costuma empregar na administração de seus próprios negócios.
6.2. Responsabilidade Criminal
Condutas podem configurar:
Estelionato (art. 171, CP)
Falsidade ideológica (art. 299, CP)
Apropriação indébita (art. 168, CP)
Lavagem de dinheiro (Lei 9.613/98)
Crimes contra o sistema financeiro (Lei 7.492/86)
6.3. Sanções Societárias
A violação dos deveres de lealdade, diligência e probidade — já previstos nos artigos 1.011, §1º, e 1.016 do Código Civil — pode ensejar a exclusão do sócio infrator, sem prejuízo das sanções patrimoniais.
6.4. Medidas Cautelares
É possível pleitear judicialmente:
Afastamento provisório do sócio administrador
Proibição de movimentação de contas ou bens
Bloqueio judicial de ativos
Exibição de documentos e livros contábeis
Essas medidas têm fundamento no art. 300 do CPC e têm sido deferidas mediante prova de risco de dano e indícios de conduta lesiva.
Conclusão
A relação entre sócios, além de regulamentada por normas legais, encontra respaldo filosófico em princípios de justiça, ética e responsabilidade. Pensadores como Aristóteles, Kant e Locke destacam a importância do dever, da boa-fé e da confiança recíproca como fundamentos da vida associativa, aplicáveis diretamente às sociedades empresárias. Assim, o agir leal e diligente não é apenas uma exigência normativa, mas também um compromisso moral que sustenta a legitimidade e a perenidade da sociedade.
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REFLEXÃO EM TEMPOS DE POLARIZAÇÃO: HIPÓTESES E FATOS
Por Jaison Vieira | Advogado
2 de abril de 2025
Uma reação, um disparo — e o fim da paz
Era uma tarde comum. Um homem teve o celular arrancado da mão num semáforo. Em segundos, puxou uma arma e disparou. O ladrão morreu. O homem agora enfrenta um processo por homicídio. O bem recuperado vale R$ 1.200. A paz, talvez nunca mais.
Cenas como essa — reais ou facilmente imagináveis — se tornaram parte da paisagem urbana. E levantam uma pergunta incômoda: vale a pena?
O contexto: insegurança e resposta
Vivemos uma era em que as opiniões se apresentam cada vez mais extremadas, muitas vezes sem o devido espaço para ponderação ou dúvida. Em lugar da escuta e da reflexão, cresce o impulso da reação imediata — motivada, quase sempre, por emoções intensas e frustração com a realidade.
Nesse cenário, a crescente sensação de insegurança pública tem levado parcelas da população a defenderem reações igualmente violentas — como se fosse natural combater a violência “ilegítima” com uma violência “legítima”, praticada pelo cidadão comum.
No entanto, é fundamental destacar que a legitimação legal dessa reação não é automática: ela depende da estrita observância dos critérios de necessidade, proporcionalidade e temporalidade. A resposta precisa ser indispensável para cessar a agressão, adequada à gravidade da ameaça e ocorrer no exato momento em que o fato se dá. Fora desses limites, a reação deixa de ser legítima.
❝ Nem tudo o que é legal é prudente. Nem toda permissão é sábia. ❞
Legal, mas prudente?
Mesmo que juridicamente possível em certas circunstâncias, a reação legitimada pelo ordenamento pode ser desastrosa, sobretudo quando se consideram suas repercussões humanas, sociais e jurídicas. Um gesto impensado, ainda que amparado por alguma expectativa de direito, pode significar perdas irreversíveis — para todos os envolvidos.
O ordenamento jurídico brasileiro reconhece, em tese, o direito de reagir à ameaça ou agressão injusta. O artigo 25 do Código Penal prevê a legítima defesa, inclusive da propriedade, desde que feita com moderação. Já o artigo 188, inciso I, do Código Civil dispõe que não constitui ato ilícito o dano causado em legítima defesa.
Mas o foco aqui não é a legítima defesa em situações de risco à vida própria, à vida de terceiros, nem hipóteses de estado de necessidade ou legítima defesa putativa. Esta última, inclusive, admite a reação mesmo quando a agressão não é real, mas apenas parece existir — o que por si só revela a importância simbólica da proteção à vida.
Aqui, a proposta é outra: refletir sobre a reação violenta em defesa de bens patrimoniais, como um celular, um veículo ou qualquer outro bem material. Ainda que a lei permita a defesa moderada desses bens, o que se propõe é avaliar se essa escolha vale o preço que pode cobrar.
A diferença entre bem e vida
A defesa de um bem patrimonial, ainda que juridicamente amparada, pode gerar efeitos devastadores: a perda de uma vida, traumas psicológicos, responsabilização penal, desgaste familiar e, não raro, a ruptura da própria paz.
Assim, o ponto central não é a existência do direito, mas a conveniência de exercê-lo. E isso exige um tipo de reflexão cada vez mais raro: a ponderação antes do fato, quando ainda não há adrenalina nem sangue, apenas hipóteses e escolhas possíveis.
O que dizem a Filosofia e a Sociologia
Immanuel Kant, filósofo alemão do século XVIII, distingue o conhecimento a priori (anterior à experiência) do a posteriori (decorrente da experiência). Para ele, a razão nos permite antecipar, calcular, refletir — antes que o fato nos arraste ao arrependimento. Esse tipo de reflexão racional é a base de uma vida moralmente responsável.
Platão, no século IV a.C., alertava contra a prisão da aparência. Na Alegoria da Caverna, ensina que quem vive preso às impressões imediatas — como o medo, o ódio ou o desejo de vingança — está algemado às sombras. Sair da caverna é refletir, buscar a verdade e agir com consciência.
Aristóteles, discípulo de Platão, foi mais pragmático. Ele defendia a phronesis (φρόνησις), a sabedoria prática, como fundamento da vida virtuosa. A virtude (areté, ἀρετή), dizia, está no meio (mesotés, μεσότης) — entre os excessos. Saber agir bem requer ponderação sobre fins, meios e consequências.
Émile Durkheim, sociólogo francês, explicou por que tantas pessoas reagem sem refletir: muitos de nossos comportamentos são moldados por fatos sociais — regras, expectativas e normas que exercem sobre nós uma força invisível. Em tempos de medo e polarização, esse automatismo coletivo pode nos arrastar à violência como se ela fosse natural ou inevitável.
❝ Refletir é também um ato de resistência — contra o impulso, o automatismo e o contágio coletivo. ❞
Conclusão: pensar antes é preservar a paz
Refletir antes de agir é um exercício de coragem e inteligência. Em vez de reagir de forma automática aos fatos, devemos cultivar a ponderação quando tudo ainda está no campo das hipóteses. Afinal, a defesa de bens patrimoniais não pode custar a paz — ou a vida.
Pense bem: se a vida te der a chance de salvar um bem ou preservar sua paz, o que você escolheria?
Jaison Vieira Sociedade Individual de Advocacia – contato@jvadvocacia.adv.br – j.vieira@jvadvocacia.adv.br
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O Crime de Estelionato pelo Uso Indevido de Cartão de Crédito: Exclusão da Falsidade Ideológica pela Aplicação do Princípio da Consunção Por Jaison Vieira | AdvogadoData: 18 de março de 2025
1. Introdução
A utilização indevida de dados de cartão de crédito para compras na internet ocorre quando um terceiro, sem autorização, se passa pelo titular, inserindo informações falsas para realizar transações e obter vantagem ilícita. Essa prática criminosa tem se tornado cada vez mais comum, gerando discussões sobre sua correta tipificação penal. O principal debate gira em torno de saber se a conduta se enquadra exclusivamente como estelionato (art. 171 do Código Penal) ou se também configuraria falsidade ideológica (art. 299 do Código Penal). Em tese, quando o agente assume a identidade do titular do cartão, há configuração de falsidade ideológica. No entanto, quando essa conduta ocorre com o único propósito de viabilizar o estelionato, a jurisprudência entende que a falsidade ideológica é absorvida pelo crime-fim, aplicando-se o princípio da consunção. Neste artigo, examinamos essa questão sob a ótica da doutrina e da jurisprudência consolidada.
2. O Princípio da Consunção
O princípio da consunção estabelece que um crime absorve outro quando este é meio necessário ou etapa normal da sua execução. Ou seja, quando uma infração penal é um pressuposto lógico e necessário para a prática de um delito mais grave, aplica-se apenas este último.
Este princípio está consolidado na Súmula 17 do Superior Tribunal de Justiça (STJ):
“Quando o falso se exaure no estelionato, sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido.”
Dessa forma, a falsidade ideológica ou o uso de documento falso, quando empregados exclusivamente para viabilizar o estelionato, são absorvidos pelo crime-fim.
3. O Concurso Material de Crimes
O concurso material de crimes está previsto no artigo 69 do Código Penal:
“Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido.”
Ocorre concurso material quando os delitos são autônomos, sem relação de absorção entre eles. No contexto do uso indevido de cartão de crédito, se o agente assume a identidade do titular para além da prática do estelionato, causando um dano jurídico independente, pode-se configurar o concurso material entre estelionato e falsidade ideológica. Isso ocorre, por exemplo, quando a falsidade ideológica é empregada para criar documentos que serão utilizados futuramente ou para obter outras vantagens ilícitas distintas do estelionato.
Um exemplo prático de aplicação do concurso material pode ser encontrado no AgRg no Recurso Especial nº 2010513 – RN (2022/0198076-3), julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Neste caso, o réu foi condenado por estelionato e falsidade ideológica de forma cumulativa. O tribunal entendeu que a falsidade ideológica não se exauriu na prática do estelionato, pois os documentos falsificados poderiam ser utilizados para outros fins ilícitos, justificando a aplicação do concurso material de crimes.
4. O Estelionato Mediante Uso Indevido de Cartão de Crédito
O crime de estelionato está previsto no artigo 171 do Código Penal:
“Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento.”
Quando um indivíduo utiliza os dados de cartão de crédito de terceiro sem autorização e se faz passar pelo titular para efetuar compras online, ele está induzindo ao erro o fornecedor do bem ou serviço, obtendo vantagem indevida em prejuízo alheio.
Assim, o crime principal é o estelionato, pois a conduta se enquadra na descrição do tipo penal.
5. A Absorção da Falsidade Ideológica pelo Estelionato
Em muitos casos, o estelionatário também insere informações falsas ao se passar pelo titular do cartão, o que poderia caracterizar falsidade ideológica (art. 299 do CP). No entanto, como já destacado, a jurisprudência do STJ entende que, se a falsidade for mero meio de execução do estelionato, ela é absorvida pelo crime-fim, aplicando-se a Súmula 17.
Caso a falsidade ideológica tenha um fim autônomo, como a criação de um histórico falso ou a tentativa de estabelecer uma identidade fraudulenta para além da consumação do estelionato, pode haver a punição por ambos os crimes separadamente, aplicando-se o concurso material.
6. Jurisprudência do STJ
O Superior Tribunal de Justiça tem consolidado esse entendimento em diversos julgados:
- HC 131.692/SP – Decidiu-se que a falsidade ideológica utilizada para viabilizar o estelionato não deve ser punida autonomamente, sendo absorvida pelo crime-fim.
- AgRg no REsp 1.827.312/DF – Ratificou-se a aplicação do princípio da consunção quando a falsidade é praticada exclusivamente para a obtenção da vantagem ilícita.
- REsp 1.695.998/SP – Reafirmou que, nos casos de estelionato cometido via fraude eletrônica, a falsidade documental utilizada para viabilizar a fraude é absorvida.
- AgRg no REsp 2010513 – RN (2022/0198076-3) – No qual o STJ reconheceu a aplicação do concurso material entre estelionato e falsidade ideológica, pois os documentos falsos possuíam potencialidade lesiva autônoma e poderiam ser utilizados para outras infrações.
7. Conclusão
A utilização de cartão de crédito de terceiro, com inserção de informações falsas para simular a identidade do titular, configura essencialmente o crime de estelionato. A falsidade ideológica, por ser um meio necessário à execução do estelionato, é por este absorvida, conforme a Súmula 17 do STJ.
Entretanto, se a falsidade for utilizada para além da execução do estelionato, criando um prejuízo jurídico autônomo, poderá haver a punição cumulativa pelos dois crimes, aplicando-se o concurso material nos termos do artigo 69 do Código Penal. Dessa forma, a análise do caso concreto é essencial para determinar se a falsidade ideológica será absorvida pelo estelionato ou se haverá a punição cumulativa, garantindo coerência na interpretação penal e evitando a duplicação indevida da punibilidade.
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Autofraude em Compras com Cartão de Crédito: Um Desafio para Empresas e Instituições Financeiras
Por Jaison Vieira | Advogado
Data: 17 de março de 2025
A expansão do comércio digital e o aumento das transações eletrônicas trouxeram novas oportunidades para consumidores e empresas. No entanto, também impulsionaram um fenômeno preocupante: a autofraude em compras com cartão de crédito. Esse tipo de golpe ocorre quando o próprio titular do cartão contesta uma compra legítima, alegando indevidamente que não a reconhece, buscando obter um reembolso indevido por meio de chargeback.
Essa prática gera prejuízos significativos para lojistas e instituições financeiras, além de sobrecarregar o sistema de disputas bancárias e impactar a credibilidade do comércio eletrônico.
O Que é a Autofraude?
A autofraude, também conhecida como fraude amigável, ocorre quando um consumidor faz uma compra com seu próprio cartão de crédito e, posteriormente, entra em contato com o banco para contestar a transação. As alegações mais comuns incluem:
- Não reconhecimento da compra, mesmo tendo sido realizada pelo próprio titular;
- Não recebimento do produto ou serviço, ainda que a entrega tenha sido feita corretamente;
- Uso não autorizado do cartão, quando, na realidade, a transação foi feita voluntariamente pelo consumidor.
O principal problema é que, muitas vezes, as operadoras de cartão favorecem o cliente, realizando o chargeback e reembolsando o valor, deixando o comerciante sem o produto e sem o pagamento.
Motivações da Autofraude
Diferente da fraude tradicional, onde terceiros roubam dados bancários para realizar compras ilegais, a autofraude é cometida pelo próprio titular do cartão. As motivações podem incluir:
- Má-fé: tentativa deliberada de obter um produto ou serviço sem pagar por ele;
- Dificuldades financeiras: o consumidor faz a compra e, depois, contesta para evitar o pagamento;
- Abuso dos mecanismos de proteção ao consumidor, utilizando indevidamente o chargeback como estratégia para reembolso;
- Descontrole de gastos, onde o consumidor recorre ao chargeback para cancelar compras feitas por impulso.
Impactos para Empresas e Instituições Financeiras
A autofraude representa um problema sério para comerciantes, prestadores de serviço e bancos, pois:
- O lojista perde a venda e o produto/serviço, sem possibilidade de recuperação financeira;
- O banco emissor do cartão precisa processar diversos chargebacks, aumentando seus custos operacionais;
- Empresas podem sofrer sanções das operadoras de pagamento, como restrições ou elevação das taxas de processamento;
- O custo da fraude pode ser repassado aos consumidores por meio do aumento dos preços.
Como Prevenir a Autofraude?
Para minimizar riscos, lojistas e instituições financeiras devem adotar medidas preventivas, como:
Para Lojistas e Prestadores de Serviço
- Registro detalhado das transações: manter comprovantes de entrega, capturas de tela e e-mails de confirmação.
- Autenticação reforçada: exigir verificação via senha ou código SMS para validar compras.
- Política clara de reembolsos e cancelamentos: evitar brechas para contestações indevidas.
- Monitoramento de chargebacks: identificar padrões de clientes reincidentes na prática da autofraude.
- Uso de tecnologias antifraude: ferramentas de inteligência artificial podem detectar transações suspeitas.
Para Instituições Financeiras
- Análise criteriosa dos chargebacks, evitando aprovações automáticas sem investigação.
- Conscientização do consumidor sobre as consequências jurídicas da autofraude.
- Bloqueio de clientes reincidentes, prevenindo abusos no sistema de disputas bancárias.
Consequências Legais da Autofraude
A autofraude pode configurar enriquecimento ilícito e, dependendo do caso, caracterizar crime de estelionato (art. 171 do Código Penal), cuja pena pode variar de 1 a 5 anos de reclusão e multa.
Além disso, empresas prejudicadas podem ingressar com ações judiciais para reverter o chargeback indevido e até buscar indenizações por danos.
Conclusão
A autofraude em compras com cartão de crédito é uma ameaça crescente para o comércio digital e instituições financeiras. Empresas e bancos precisam adotar medidas preventivas e fortalecer seus processos de análise de chargebacks para evitar prejuízos.
A conscientização sobre as consequências legais da autofraude também é essencial para coibir essa prática e garantir um ambiente de compras mais seguro e confiável.
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Mensagem de Boas Festas
Aos Nossos Clientes e Amigos,
Neste momento de celebração e renovação, expressamos nossa mais sincera gratidão pela confiança depositada em nosso escritório ao longo de 2024. Cada desafio enfrentado e cada conquista alcançada só foram possíveis graças à parceria e ao compromisso que compartilhamos com vocês.
Inspirados pelo poema de Paulo Leminski, refletimos sobre a força da autenticidade e da resiliência, valores que nos movem e que compartilhamos com nossos clientes:
“Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além.”
Enquanto nos preparamos para 2025, reafirmamos nosso compromisso de estar ao seu lado, oferecendo suporte jurídico de excelência e soluções personalizadas, sempre atentos às suas necessidades e objetivos.
Desejamos a todos um Natal repleto de paz, alegria e esperança, e um Ano Novo cheio de realizações, saúde e prosperidade. Que o próximo ano seja marcado por novas oportunidades, crescimento e sucesso.
Boas festas e até 2025!
Com os melhores votos,
Jaison Vieira Sociedade Individual de Advocacia
Falsos Sites de Leilão
- 1. Como Identificar e Evitar Esse Tipo de Fraude
Os falsos sites de leilão tornaram-se uma das fraudes mais comuns na internet, prejudicando milhares de consumidores que buscam boas ofertas online. Esses sites frequentemente se passam por plataformas legítimas de leilão, prometendo produtos de alto valor – como carros, eletrônicos e imóveis – a preços muito abaixo do mercado. No entanto, após o pagamento, o comprador descobre que o item não existe, e a plataforma desaparece ou se torna inacessível.
2. Como Funciona a Fraude dos Falsos Sites de Leilão?
Esses sites são estruturados de forma a imitar páginas de leilões tradicionais, utilizando um layout profissional, logotipos e certificados falsos para enganar os usuários. Algumas fraudes também aproveitam nomes de empresas renomadas, criando páginas quase idênticas aos sites oficiais para ganhar credibilidade. Os golpistas geralmente exigem um pagamento imediato para “garantir” o produto, seja por transferência bancária ou boleto, métodos que não permitem o cancelamento da operação. Não se impressione com fomalidades e demostrações de credibilidade, pois isso são características de fraudadores profissionais.
3. Sinais de Alerta para Identificar Sites Falsos
3.1. Ofertas Extremamente Baixas: Produtos com preços muito inferiores ao valor de mercado são o primeiro sinal de alerta. Desconfie de itens valiosos por preços irrealistas.
3.2. Formas de Pagamento Limitadas: Sites falsos de leilão costumam aceitar apenas transferências ou boletos bancários. Empresas legítimas de leilão geralmente oferecem várias opções, incluindo pagamentos com cartão de crédito.
3.3. Ausência de Informações de Contato: Plataformas legítimas possuem atendimento ao cliente com endereços e telefones reais. Sites falsos, em contrapartida, limitam os contatos ou fornecem informações genéricas e difíceis de confirmar.
3.4. Prazo Urgente para Pagamento: Esses sites criam um senso de urgência, incentivando os compradores a pagar rapidamente para “não perder a oportunidade”. Esse é um mecanismo comum para evitar que o usuário pesquise ou suspeite do golpe.
3.5. URLs Suspeitas: Verifique se a URL é idêntica à de sites confiáveis e se utiliza “https”, indicando um mínimo de segurança. Muitas fraudes utilizam domínios similares, mas com pequenas diferenças ou terminados em “.net” em vez de “.com.br”, por exemplo.
4. O Que Fazer se Cair em um Golpe
Caso perceba que foi vítima de um falso site de leilão, é essencial agir rapidamente. Entre em contato com o banco para relatar a fraude e tentar bloquear a transferência. Além disso, registre um boletim de ocorrência e notifique os órgãos de defesa do consumidor, como o Procon, e a Delegacia de Crimes Cibernéticos. Procure um advogado para implementação, imediata, de uma Medida Cautelar de bloqueio da conta de destino. Quanto mais rápido as autoridades forem informadas, maiores são as chances de identificar e bloquear o funcionamento dessas páginas fraudulentas.
5. Como se Proteger?
Para evitar cair em golpes de falsos sites de leilão, procure sempre por plataformas confiáveis e verifique a autenticidade de cada página, mesmo que tenha sido recomendada por fontes aparentemente seguras. Faça pesquisas detalhadas sobre o histórico da empresa e leia avaliações de outros usuários. Tenha cuidado com referências recentes na internet, pois elas podem ter sido plantadas pelos golpistas para enganar os compradores. Lembre-se de que, no Brasil, existem mais de 1.000 sites fraudulentos de leilão e a maioria deles não possui o domínio .com.br, o que pode ser um alerta. Não use links enviados pelo leiloeiro para se certificar da idoneidade deste; vá direto à fonte. Consulte o leiloeiro no site da junta comercial do seu Estado (Decreto Federal nº 21.981/1932, art. 1º).
Além disso, evite conduzir todas as tratativas exclusivamente por WhatsApp. Sempre que possível, entre em contato com o leiloeiro por telefone fixo, verificando a titularidade do número e confirmando o endereço fornecido. Jamais faça pagamentos a terceiros: se o leiloeiro informado é João, mas a conta para depósito está em nome de outra pessoa, não prossiga com o pagamento.
Também é recomendável verificar o CPF do leiloeiro no site do Tribunal de Justiça do seu estado para identificar se há processos em andamento, especialmente relacionados a estelionato ou outras ações que possam comprometer sua credibilidade. E lembre-se: imagens de pátios repletos de veículos não garantem a veracidade do leilão.
Em caso de dúvida, consulte um advogado especialista em fraudes para uma análise mais detalhada e segura, garantindo que você está protegido contra possíveis prejuízos.
Jaison Vieira
Advogado | OAB/SP 300100 | OAB/SC 47281
Jaison Vieira Sociedade Individual de Advocacia
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FRAUDE PATRIMONIAL MATRIMONIAL
1. Como Proteger Seus Direitos e Identificar Abusos
A fraude patrimonial matrimonial ocorre quando um dos cônjuges realiza manobras ilegais ou desleais para ocultar, desviar ou dissipar bens com o objetivo de prejudicar o outro cônjuge, geralmente em processos de divórcio, separação ou partilha de bens. Esses atos podem levar a uma divisão injusta do patrimônio, afetando não só o cônjuge lesado, mas também filhos e outros dependentes. Neste artigo, discutiremos os tipos de fraude patrimonial matrimonial, como identificá-los e quais são as consequências legais para os envolvidos.
2. O Que é Fraude Patrimonial Matrimonial?
Fraude patrimonial matrimonial refere-se a ações intencionais de ocultação ou transferência de bens realizadas por um dos cônjuges para obter vantagem financeira sobre o outro, reduzindo a cota de bens que deve ser partilhada. Esse tipo de fraude é uma forma de abuso econômico e configura uma violação dos direitos patrimoniais do cônjuge lesado.
3. Principais Formas de Fraude Patrimonial Matrimonial
Existem diferentes maneiras pelas quais um cônjuge pode tentar esconder ou desviar patrimônio. Entre os métodos mais comuns estão:
- Transferência de bens para terceiros: Doação ou venda fictícia de bens a amigos, familiares ou empresas controladas pelo cônjuge, a fim de retirar esses ativos da divisão patrimonial.
- Simulação de dívidas: Criação de dívidas inexistentes ou supervalorizadas para reduzir o patrimônio líquido a ser dividido.
- Subavaliação de bens: Registrar bens por um valor abaixo do mercado ou omitir informações financeiras, como ações ou investimentos.
- Compra de ativos ocultos: Investimento em bens de difícil rastreamento, como criptoativos, obras de arte ou ativos estrangeiros.
- Ocultação de renda: Manipulação de rendas através de empresas, contas bancárias em nome de terceiros ou recebimento de valores “por fora” para reduzir a percepção dos ganhos reais.
4. Motivações e Consequências da Fraude Patrimonial Matrimonial
A fraude patrimonial em relações conjugais é, em grande parte, motivada pelo desejo de obter uma vantagem financeira e evitar a divisão de bens. Essa prática, porém, não apenas prejudica financeiramente o cônjuge lesado, mas também causa danos emocionais e pode ter impactos sobre a estabilidade familiar.
As consequências da fraude patrimonial matrimonial incluem:
- Desigualdade econômica: O cônjuge lesado pode ser privado de uma partilha justa, afetando sua capacidade financeira.
- Danos psicológicos: O cônjuge lesado pode experimentar ansiedade, estresse e desconfiança.
- Consequências legais: Quem pratica fraude pode responder por seus atos judicialmente, incluindo a revisão dos atos fraudulentos, sanções civis e, em certos casos, responsabilização criminal.
5. Como Identificar Sinais de Fraude Patrimonial Matrimonial
Embora o cônjuge fraudador tente ocultar seus atos, alguns indícios podem servir de alerta:
- Mudanças abruptas nas finanças: Alterações repentinas no estilo de vida, transferências financeiras incomuns ou abertura de contas bancárias ocultas.
- Inconsistências patrimoniais: A existência de bens não declarados ou subavaliados no inventário financeiro do casal.
- Movimentações de bens: Venda ou doação de ativos significativos sem motivo claro ou registro.
- Surgimento de “dívidas” inexplicáveis: Dívidas registradas em nome do cônjuge ou da família que não possuem justificativa plausível.
- Documentação incompleta ou manipulada: Omitir informações financeiras ou documentos necessários à apuração do patrimônio.
6. Medidas Preventivas Contra Fraude Patrimonial Matrimonial
Para evitar a prática de fraudes patrimoniais, existem algumas medidas que podem ser tomadas tanto preventivamente quanto no curso de um divórcio ou separação:
- Pacto antenupcial: Definir o regime de bens em um pacto antenupcial, delimitando com clareza o que será partilhado e as consequências em caso de dissolução do casamento.
- Monitoramento das finanças: Manter-se informado sobre a situação financeira do casal, com acesso a contas bancárias, registros de bens e obrigações financeiras.
- Auditoria patrimonial: Em processos de divórcio, é recomendável solicitar auditorias patrimoniais e financeiras para garantir uma visão precisa dos ativos a serem divididos.
- Bloqueio judicial de bens: Em casos de suspeita de fraude, o cônjuge lesado pode solicitar ao juiz que bloqueie temporariamente os bens para evitar sua alienação até a conclusão do processo.
- Assistência jurídica especializada: Contar com a orientação de um advogado especializado em fraudes patrimoniais pode fazer a diferença na prevenção e resolução de fraudes.
7. Consequências Legais para Fraude Patrimonial Matrimonial
A legislação brasileira oferece mecanismos para combater a fraude patrimonial matrimonial. Quando identificada, a fraude pode levar a consequências sérias para o cônjuge que a pratica:
- Revogação de atos fraudulentos: Transações feitas para ocultar bens podem ser revertidas judicialmente, devolvendo os ativos à partilha do casal.
Responsabilização civil e criminal: A fraude pode levar à responsabilização do cônjuge fraudador, exigindo o ressarcimento ao cônjuge lesado e sanções penais em casos graves.
Perda de direitos: O cônjuge fraudador pode perder direito a determinados bens, sendo penalizado pela tentativa de lesar o patrimônio comum. - 8. Conclusão
A fraude patrimonial matrimonial é uma prática que afeta diretamente a integridade dos direitos patrimoniais de cada cônjuge. Em momentos de dissolução da união, é essencial adotar medidas de precaução e contar com orientação jurídica para garantir que a divisão dos bens seja justa e respeite o regime de bens adotado. A transparência e o respeito aos direitos patrimoniais não só são legais, mas também contribuem para o término da relação de maneira justa e digna.
Se você suspeita de fraude patrimonial em sua união ou deseja proteger seus direitos no caso de uma separação, nosso escritório está à disposição para auxiliar. Conte conosco para a proteção do seu patrimônio e para garantir uma partilha justa e legal.
Jaison Vieira
Advogado | OAB/SP 300100 | OAB/SC 47281
Jaison Vieira Sociedade Individual de Advocacia

